Nobre Cavaleiro | Conto de fantasia medieval

Escrito por: Leo Rodrigues

Para Ruhtra, a sorte sempre foi sua maior característica de combate. E há quem diga que seus feitos só são lembrados porque ele a teve ao seu lado. Mas o que de fato será a principal característica deste Nobre Cavaleiro?

Indicado para 14 anos ou mais.

NOBRE CAVALEIRO

   De todos os nobres cavaleiros do reino de Retnec, Ruhtra foi o mais célebre. Chamava atenção por onde quer que passasse, sempre montado em seu corcel negro, um contraste perfeito com sua armadura dourada reluzente. Era famoso por sempre repetir que sua melhor habilidade era a sorte.

   Ruhtra tornou-se cavaleiro graças a um de seus muitos atos heroicos, estava coletando cogumelos próximo ao rio, quando ouviu um grito de socorro, correu em direção ao pedido desesperado e ao chegar lá se deparou com um jovem se afogando. O jovem era simplesmente um dos sobrinhos do Rei Dourado, que não conseguia recordar nada daquele dia, a não ser acordar na beira do rio nos braços de Ruhtra.

   Como forma de retribuição, o Rei Dourado ordenou que fosse treinado para se tornar um cavaleiro por sua bravura e coragem. O então aprendiz, foi designado para o agrupamento da poderosa Telmah, que lhe ensinou tudo o que sabia sobre montaria, artes marciais e manejo da espada.

   Uma noite, retornando de um treinamento em mar aberto, a embarcação de Telmah enfrentou uma tempestade repentina. As ondas gigantes e os ventos fortes balançavam furiosamente o barco, jogando os tripulantes contra as paredes e uns contra os outros, que eventualmente acabaram batendo a cabeça e desmaiando, com a exceção de um homem, Ruhtra.

   Os guardas do porto de Natsnoc puderam ver a embarcação se aproximando e o jovem aprendiz a conduzia, sozinho, para a segurança da terra firme. Após esse episódio, o Rei Dourado, incentivado por Telmah, o nomeou, oficialmente, Cavaleiro.

   A vida de um Cavaleiro, no geral era boa, vivia no mesmo castelo que o rei, comia a mesma comida, porém, tinha as mesmas obrigações que um soldado, proteger e servir os interesses de seu mestre. Ou seja, defender os muros do castelo e ir para a guerra.

   E foi na batalha de Tresed que, mais uma vez, Ruhtra demonstrou-se notório. A batalha estava muito difícil, os inimigos do reino tinham rompido as linhas de defesa dos soldados e cavalgavam em direção aos cavaleiros dourados, como é conhecida a guarda pessoal do Rei de Retnec.

   Um inimigo, o qual o nome se perdeu nas histórias, superou a guarda e avançou sedento para atravessar sua lança no peito do Rei dourado, que estava atônito, imóvel, sem acreditar que aquilo seria possível. Via a lança se aproximando, seu destino estava traçado, uma mistura de descrença e raiva lhe enchia o peito, quando surpreendentemente, a lâmina não vinha mais em sua direção, o oponente fora derrubado de seu cavalo.

   Ao Rei, foi explicado que, percebendo aquela situação, o nobre cavaleiro Ruhtra partiu em disparada na direção do agressor e acertou-lhe em cheio pelo flanco direito, derrubando-o de seu cavalo e salvando a vida de seu suserano.

   Essa reação rápida e certeira garantiu um novo fôlego para o exército dourado e foi providencial para a vitória da batalha. Além de garantir ao Ruhtra uma promoção para a guarda pessoal do rei, novos equipamentos e seu adorado corcel negro.

   Acontece que com a idade, o nobre cavaleiro perdeu um pouco de suas papas na língua. O velho contou para o Rei que na verdade, ele não sabia nem nadar, por sorte seu sobrinho já estava são e salvo na beira do rio e apenas acordou quando ele se aproximou.

   Contou também, que no meio daquela tempestade, fora o primeiro a se sentir mal, pois não se dava bem com o mar de jeito nenhum, e apenas não desmaiou pois estava dentro no banheiro, na cabine indisposto, e, quando finalmente conseguiu sair, avistou o continente e não encontrou dificuldade em navegar até o porto.

   Por fim, confessou que na batalha de Tresed, ele estava apavorado e tentou fugir, porém algo assustou seu cavalo que empinou, deu meio volta e disparou na direção oposta à que ele queria seguir, atingindo em cheio aquele lanceiro que ameaçava a vida do Rei.

   Hoje, aos 70 anos, Ruhtra pode dizer realmente que a sorte caminha ao seu lado, pois não será executado por traição, afinal, de tão assustado, o rei engasgou com a coxa de frango e acabou morto por asfixia, sem ter tempo de executar o charlatão.


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