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O Rito | Conto de Fantasia

Escrito por: Vinicius Mendes Souza Carneiro

Killgrunt é um bárbaro meio orc que precisa mostrar sua verdadeira vocação ou morrer tentando. Indicado para 12 anos ou mais.

O barulho das folhas secas era audível a cada passo, ali sozinho na mata, se sentia em casa, o cheiro de pinho e o farfalhar da folhagem das árvores era agradável e tudo evocava aquilo que havia de mais primitivo em seu coração. Kilgrunt Lâmina de Sangue saiu na empreitada mais importante de sua vida, mostraria que era digno, mostraria que o clã dos guerreiros-ursos do qual fazia parte deveria se orgulhar dele! Após aquele dia, ou viveria em honra ou morreria em desgraça, assim era a natureza, assim as coisas eram, desde outrora. Neste momento não estava somente em jogo sua vida, mas a honra de sua família adotiva e de seus ancestrais!

Kilgrunt nasceu da guerra em meio ao clamor do aço e dos gritos à sua volta. Claro que um pequeno bebê não poderia perceber nada daquilo, mas os xamãs dizem que alguma energia dali emanou, alguma coisa o preenchera de algo que só descobriria mais tarde. A batalha era por ele, por ele e por sua mãe, sendo mais exato. Seu nascimento ocorrera em meio aos Orcs Esmaga-Crânio, uma das mais violentas tribos da região. Seu pai era um Bárbaro Lâmina de Sangue que provara a virilidade ao seduzir e reproduzir com sua mãe, uma orquisa musculosa e violenta, líder de bando, no entanto infelizmente aquilo não duraria muito, já que foi morto em seguida pela mesma.
Em seu último suspiro, Grumak, o Viril, contara a verdade para sua tribo, havia se deitado com uma orc, algo que chocou e deixou a todos admirados. Grumak morreu feliz e satisfeito, seu título agora seria eterno, mas sua tribo entrou em fúria. Nenhum Lâmina de Sangue morria sem vingança e por isso invadiram o território dos orcs, o que significava invadir as cavernas onde tais indivíduos moravam.
A invasão não ocorreu imediatamente. Eram bárbaros, porém sabiam planejar, afinal não haviam sobrevivido por gerações sem um mínimo de sabedoria e cautela. Observaram a rotina de seus vizinhos hostis por meses, até entender qual seria o momento ideal para o ataque. Foi ao meio-dia, no momento do nascimento de Kilgrunt, que a invasão aconteceu. Quando as forças dos Lâmina de Sangue invadiram os aposentos de sua mãe, a surpresa e a alegria preencheram seus corações, afinal Grumak, o Viril, havia deixado sua semente! Em seus últimos momentos, Triloa (mãe do pequeno bebê mestiço) disse: “Chamar Kilgrunt” sendo atingida na cabeça por um machado em seguida.
Havia algo que qualquer Lâmina de Sangue também nunca faria: abandonar um dos seus ou mesmo desrespeitar o nome dado por uma mãe moribunda. Meio-orc ou não, Kilgrunt era um Lâmina de Sangue, descendia de Grumak e em honra ao seu pai a tribo o adotou. Entre os guerreiros-ursos não havia distinção entre bem ou mal nascido, havia a honra, a batalha, a fúria e a largura do braço! Quem conseguisse a melhor combinação entre essas coisas seria respeitado.
No fim das contas o meio-orc cresceu sob constante treinamento, entre aqueles da sua idade certamente era o mais forte, porém respeito é algo que nunca obteve, não por suas raízes, mas porque nesta tribo para se tornar um homem era necessário passar por um rito de passagem. Foi quando atingiu os 14 anos que o mandaram realizar o feito, retornando vivo seria um membro da tribo, não retornando todos saberiam que não era capaz.

Andava devagar entre as árvores e observava os sinais, ali estava, eram fezes frescas, sabia pois as tocou e estavam quentes. Revirou o monte, pêlos, escamas, ossos, era o que um urso comia. Abandonou seu machado e duas machadinhas e passou a andar com mais cautela, certamente o animal não estava longe, se esgueirou devagar através das árvores e escutou o barulho de água, algum riacho passava por ali, então o seguiu na esperança de que o animal estivesse lá.
Para evitar chamar atenção, buscou andar contra o vento e pisar nas pedras, seu coração acelerou com a expectativa e pulsava forte, a respiração calma contrariava seus ânimos, pouco dando mostra do que realmente acontecia com seu corpo. Após alguns momentos de tensão e furtividade, finalmente seu alvo pôde ser visto. Era um urso pardo grande, calmamente parado à beira do córrego bebendo a água límpida. Pelo tamanho parecia ser um macho que provavelmente dominava aquele território, e era isso o que buscava.
Apanhou seu amuleto em forma de urso e orou para o totem de sua tribo: “Que no sangue de teu irmão eu me torne digno de sua força, e que caso não seja, que me torne parte de sua carne”.
Através das pedras se esgueirou em direção ao alvo, para qualquer pessoa comum aquilo seria um suicídio, mas para Kilgrunt era a diferença entre ser um homem e um menino, entre um guerreiro e um covarde, aquilo era viver ou morrer. Se posicionou em um ponto mais alto e quando estava prestes a saltar o animal virou e o viu ali, a boca escancarada e cheia de dentes do urso se abriu em uma ameaça clara, mas antes que o mesmo o pudesse perseguir concluiu a manobra e pulou sobre suas costas.
Agarrado no pescoço do animal a verdadeira provação começou, girando e pulando o urso oferecia uma resistência incrível. Cravou suas mãos no couro do bicho e conseguiu machucá-lo, porém ainda não o suficiente, o sangue empapara o pelo e a determinação em viver, bem como a fúria do mesmo, aumentara. Ficando de pé o urso bateu as costas e Kilgrunt contra uma pedra, golpe que quase lhe custara uma costela. Sentindo o perigo de aquilo se repetir, o bárbaro apoiado pela pedra, empurrou seu adversário tenaz com ambas as pernas e o soltou, fazendo o bicho cair em pé a alguns passos.
Agora livre, o urso se posicionou de frente para seu agressor e o encarava, Kilgrunt sabia que apenas um deles sairia vivo dali, porém seu olhar não vacilara. Naquele instante de contemplação sentiu seu peito queimar e a sensação de excitação inundar suas veias, momento em que gritou a plenos pulmões: “VENHA, FERA!” e o urso arrematou em sua direção. A velocidade do animal o surpreendeu, uma fera daquele tamanho não deveria ser tão ágil, porém não era o suficiente para ceifar sua vida, mesmo que por pouco. O animal desferiu em Kilgrunt um golpe com as garras, ele se esquivou no último segundo, ou quase, as garras de treze centímetros do animal penetraram de raspão em sua carne, fazendo quatro grandes cortes em seu peito e derramando seu sangue pelo corpo.
Sem pensar, Kilgrunt, desferiu em resposta um soco com toda a força que conseguiu reunir na altura do olho esquerdo do urso, o golpe foi tão bem sucedido que estourou o olho do animal, o enfurecendo ainda mais! Uma dança aterrorizante começou: garra contra soco, peso contra agilidade e mordida contra, contra, o que mesmo? Contra mordida, ora essa! Kilgrunt aproveitava cada brecha, cada oportunidade para desferir golpe após golpe, não morreria ali, não deixaria aquela fera levar sua honra, seria DIGNO!
Mais uma garra o acertara, desta vez ao lado de sua cabeça e mais sangue seu escorria. Naquele momento, no entanto, a dor já não existia, vida e morte nada significavam, tudo o que importava era a vitória sobre seu adversário! Com o rosto sangrando percebeu que era agora o momento certo, passou a mão direita sobre o sangue fresco e o arremessou no único olho do animal, o deixando momentaneamente cego, e então em um movimento descuidado colocou toda a força que tinha em seu corpo naquele último soco.
Quando o punho atingiu o crânio do animal, o impacto foi tamanho que sentiu os ossos de todo o braço vibrarem, certamente fraturou a mão no processo, porém junto com ela o crânio do urso também, já que este tombou pesadamente aos seus pés. Em pé ali, Kilgrunt ficou observando o que fez, a fera gigantesca morta, boquiaberta, assim como ele diante de tal feito. Por fim buscou seu machado e suas machadinhas, e começou a esfolar o bicho.
Após ter passado a noite na floresta, o bárbaro voltou à tribo, sujo de sangue e vestindo a pele do animal que abatera, o crânio do urso serviria-lhe agora de elmo e seu couro o recobria como uma manta. Todos o receberam com honra e sua volta foi ovacionada, a semente de Grumak dera resultado e agora possuía seu próprio nome: Kilgrunt Lâmina de Sangue.
Nos anos que se passaram, infelizmente ele não foi capaz de ativar sua comunhão com o espírito totêmico do animal, então quando fez 16 anos resolveu viajar e abandonar sua tribo por um período, até que aprendesse o significado de seu totem, até que ele mesmo se considerasse um bárbaro. Seu destino neste momento já estava traçado, um ponto marcado na imensidão de Faerûn, uma das joias da vasta Costa da Espada: era a cidade do Portal de Baldur!

 



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