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O Conto de Lone Phil (Parte 2) : Caminhos Reabertos

Escrito por Nilson Doria

O Conto de Lone Phil – Parte 2: Caminhos Reabertos

Este conto faz parte do universo de BadLands, um cenário de faroeste sobrenatural do RPG Next. Aqui acompanhamos Lone Phil em sua jornada após os eventos com Dimassio, explorando temas de identidade, espiritualidade e destino.

BadLands é um cenário de faroeste que mescla elementos históricos e sobrenaturais no qual grupos de aventureiros vivem suas histórias. Nesse conto, entre a primeira e a segunda temporada de BadLands, Lone (Phil) vive um período de transição profunda — física, espiritual e emocional. Este conto acompanha sua jornada após o confronto com Dimassio, sua separação do grupo, o despertar de antigas visões, o retorno do Lobo e do Coiote, e a presença inquietante de Ezequiel.

Apatia e resolução

Há poucos meses, Phil havia testemunhado um ensaio do Apocalipse. Era muito estranho como todo o mundo exterior parecia igual. No saguão do hotel ele olhava ao redor: Tony continuava obsessivo pelos seus chapéus de cone, Lou permanecia impermeável ao que se passava em volta, encapsulado em sua sorte prodigiosa, das poltronas ao redor, podia ouvir as mesmas querelas mesquinhas sendo discutidas pelos hóspedes, pela diminuta janela podia observar as lavadeiras quarando os lençóis, tudo isso como se criaturas inexplicáveis não rondassem a cidade, como se o mundo não estivesse prestes a acabar.

Ele e seus dois amigos estavam sentados em uma mesa no canto distante da porta de entrada do hotel. Aguardavam Brody, que havia deixado o grupo logo depois do confronto com Dimassio. Encostado à quina das paredes, mais silencioso que de hábito, olhava e ouvia o que se passava sem interesse, ainda assim atento. Não podia ser indiferente àquele alheamento. Como era possível que a brancura dos lençóis, a nova taxação federal, a sorte que se merece, ou a moda do que se traz à cabeça fossem mais importantes que o mal que testemunharam?!

Desde tudo o que ele, Brody, Tony, Lucky e Lupita passaram quando confrontaram Dimassio, Lone estava ainda mais ensimesmado que o de costume. Ele, que sempre havia achado exageradas as crenças de seu preceptor, ou melhor, de seu postumamente descoberto pai, agora não podia negar que o mundo era muito maior do que supunha. Havia como que outro mundo por detrás dele. Podia ser que seu pai conseguisse enxergar através do véu, e que houvesse sabedoria nisso. Agora, entretanto, o véu se rasgava, tolice seria ignorar.

Phil sabia que não era um sábio que podia enxergar através das aparências, mas também não era um tolo, que, ao vê-las derretendo à sua frente, pudesse ignorar os fatos. Mesmo sem querer admitir, era o que pensava sobre todos aqueles reunidos ali na sua frente: os estranhos e seus amigos – pareciam-lhe todos uns tolos.

Talvez estivessem de certa maneira justificados, afinal era difícil lidar com tudo aquilo, melhor fingir que não existisse. Quanto mais todos se apegassem a essa forma de lidar com o assunto, tanto mais fácil. Anonimamente solidários ajudavam-se a deixar todo o horror de lado. Ao manter a aparência exterior de normalidade, não precisavam lidar com os terrores internos.

Phil não podia agir assim. O horror residia em si. Ezequiel espreitava, a qualquer momento poderia eclodir e tomar o controle. Mesmo agora Phil sentia, ouvia, e tinha lampejos de como o mundo era a seus olhos. O mundo de Ezequiel era exatamente aquele que os demais queriam esconder, o Apocalipse era sua redenção. Ele não fugia de seus horrores, ele os buscava. Mesmo que Phil tentasse agir como os demais, não conseguiria. Sua visão de mundo havia se transformado drasticamente, e Ezequiel não o deixava iludir-se.

Absorto nesses pensamentos, Phil despertou quando a porta do saguão se abriu de forma abrupta, deixando que a luminosidade exterior penetrasse e contraísse as pupilas de todos os presentes repentinamente. A silhueta era familiar e ao mesmo tempo havia algo de estranho nela. Era Brody. Mas porque ele usava saias?

– ‘Tarde, pessoal! – ‘Tarde, Brody! – Responderam Tony e Lou em uma só voz.

– Péra aí, Brody? Que roupa é essa?! – Disse Tony com os olhos arregalados.

– Ah, essa roupa?! Nada não. É que eu entrei para o seminário. Vou ser padre.

– Hein?! – Interrompeu novamente Tony, com o cenho franzido.

– É, pessoal. Para mim não dá mais para fingir que nada aconteceu. A gente tá enfrentando diabos há muito tempo – disse persignando-se – o mundo quase acabou. Sozinhos a gente não dá conta. Entrei para o seminário, Deus há de livra-nos do mal. Amém?

– Cada um tem a sorte que merece, né? Se a sua é ser padre, que seja! Feliz por você, meu amigo! – desnecessário dizer que esta foi a resposta de Lou.

– Sente aqui e conta essa história direito, Brody! – disse Tony, e completou: – Você sabe que padre não pode fazer certas coisas, né?…

A conversa alongou-se até além do pôr-do-sol. Phil permaneceu calado, ouvindo e observando. Apesar da apatia que aparentava, a resolução de Brody despertou algo em si. Depois de muito tempo, seus olhos brilhavam.

Despedida

– Brody… Brody… – disse Phil sacolejando o amigo que roncava, ainda antes da aurora.
– Ahn, quê?… Ah, é você Lone! Que que ‘cê quer? O dia nem raiou ainda! – disse com o rosto amassado e os olhos ainda remelentos.
– Tô estou indo embora.
– Como assim? Eu acabei de chegar! Tem tanta coisa que eu quero contar! ‘Cê vai querer ouvir! Aprendi tanta reza nova contra esses di… ôpa, melhor não terminar. ‘Cê entendeu, né?
– Entendi, amigo. Mas é por isso mesmo que eu vou. ‘Cê me mostrou que eu não posso ficar aqui parado.
– Que conversa é essa?!
– Essas coisas que a gente viu… o mundo está acabando!
– Mas ‘cê vai assim, de repente?!
– Não foi de repente. Os outros parecem que não passaram pela mesma coisa que a gente! É só chapéu pra cá, sorte pra lá… Eu não consigo. O Ezequiel tá na minha cabeça, os fantasmas, os monstros estão à solta… eu não consigo.
– E pra onde é que ‘cê vai, homi de Deus?!
– Num sei, vou procurar um caminho, como ‘cê procurou. Outro caminho, o meu caminho.
– E nós, Lone? Como a gente fica sem você?
– ‘Cês vão se arranjar. Têm um padre agora… Mas eu volto. Não sei quando, mas volto. Sinto que nossos destinos estão ligados.
– ‘Cê tá certo, Lone. Dói dizer, mas é isso! Minhas rezas ainda não são tão boas quanto seu rifle… Bão, mas eu tenho um rifle também! Acho que isso equilibra um pouco as coisas…
– Espero que sim. Não vou falar com os outros. Eles não entenderiam.
– Claro, amigo. Deixa que eu enfio isso goela abaixo deles. Boa sorte!
– Sorte eu deixo para o Lou! Hehehe – disse Phil com um riso sincero, mas triste. Brody riu no mesmo tom, e os dois amigos se despediram assim. Antes que Phil atravessasse a porta do quarto, já podia ouvir de novo o ronco pesado de Brody.

Reencontro

– Quem vem lá?

– ‘Cês já me conhecem, abram passagem! – disse Phil no idioma em que lhe falavam os Numunuu em guarda.

– Ah, é o garoto do Velho! – disse um deles recordando-se de visitas anteriores.

– Mas o Xamã disse que a gente estava quite, que não havia mais assunto entre nós. – respondeu o outro.

– Um amigo é sempre um amigo. O Velho pode estar morto, ele pode não ter mais assunto com o Xamã, mas nem por isso deixa de ser bem-vindo. – disse a primeira sentinela abrindo passagem.

Deste modo deixaram que Phil adentrasse o assentamento dos Numunuu. De cabeça baixa, montado em seu cavalo, dirigiu-se lentamente até o tipi do xamã que o ajudara há muito tempo. Apeou o cavalo e adentrou a tenda. O ancião estava de costas para entrada, mexendo em suas ervas e seus preparos, mas não foi pego de surpresa.

– O que quer aqui? Já disse que não tenho mais como ajudar. Seu lugar não é aqui!

– Já não sou o mesmo, velho. As coisas mudaram. Talvez esse novo homem possa ser ajudado. – O ancião voltou-se para Phil, com as mesmas rugas e as mesmas pinturas no rosto, mas ele também não era o mesmo. O que havia mudado? Difícil de dizer, mas Phil podia sentir em seu olhar.

– Nenhum de nós é o mesmo. – disse o sábio Numunuu.

– Encontrei o “homem de um chifre só”, minha outra metade já faz parte de mim, tudo que sua visão revelou se cumpriu.

– E ainda assim…

– Ainda assim, nada está no lugar.

– Eu já disse, o destino cumpre-se a seu tempo. Não posso fazer nada.

– Não peço que faça nada por mim. Sei que está além da vontade dos homens.

– Realmente, parece que você está mudado.

– Não poderia ser diferente. Mesmo a minha vontade já é não é só minha.

Chegando mais perto de Phil o xamã puxou com os polegares suas pálpebras inferiores para baixo e olhou profundamente em seus olhos.

– Eu vejo. Não gostaria, mas vejo. O que quer então, já que sabe que não posso ajudar?

– Que me diga quem pode me ajudar. Sei que não é homem nem mulher.

– Tem certeza disso?

– Não, só aceito.

– Então se deite aí como da outra vez. Já está tudo pronto. Os espíritos haviam dito que eu precisaria disso, mas não imaginei que era para usar em você.

Phil obedeceu. O xamã começou a entoar alguns cânticos e manusear alguns ramos de fumo. Em breve Phil estava dormindo, ou melhor, sonhando. Sonhar sem dormir? Sim, não. Como era possível? Não se sabe, mas Phil sem sair do tipi, não estava mais nele: flutuava em uma pequena clareira circular em meio a um bosque cerrado.

Nascimento

Durante um tempo impossível de precisar Phil sentiu-se planando na clareira. Por todos os lados o espreitavam, ele não podia ver quem ou o quê, mas podia sentir. O caçador tentou gritar para atrair a atenção de quem o observava. Foi então que ele percebeu que não flutuava verdadeiramente, estava deitado em um pequeno berço de palha cheio de lã. Do seu grito planejado brotou apenas o choro de um bebê.

Conforme seu choro ecoou pela clareira animais começaram a sair do bosque em sua direção. Ao Leste um semicírculo de lobos surgiu, ao Oeste um de coiotes. Phil tentou se levantar e correr dali, mas seu corpo de recém-nascido não lhe obedecia. Tentou gritar novamente, e novamente apenas o choro saiu de sua boca.

O desespero começou a tomá-lo, o medo dos animais aliado ao inexplicável estado de seu corpo, faziam com que os pequenos pulmões operassem ao máximo, resultando em um trinado agudo, toda a sua pele estava vermelho-arroxeada tamanha a força que empregava.

De todos os lados os animais aproximavam-se lentamente, com olhos arregalados, dentes trincados e a saliva avolumando em suas mandíbulas inferiores. Quanto mais o bebê chorava, maior parecia ser o apetite das alcateias. Um uivo vindo do lado leste bosque gelou o pequeno coração de Phil, que imediatamente parou de chorar e fechou os olhos. Simplesmente havia aceitado seu destino.

Com os olhos cerrados não pode perceber que não só o seu corpo estava paralisado, lobos e coiotes também gelaram e puseram-se imóveis. Um grande lobo cinzento surgiu dentre as árvores, seu porte era robusto e sua pelagem tão absolutamente uniforme que causava desconforto ao olhar. Avançou resoluto em linha reta em direção ao berço, indiferente aos demais animais.

– Ele é meu.

Puxou do berço o bebê ainda paralisado, mas já de olhos abertos, segurando-o pelo capuz da roupa simples que lhe envolvia o débil corpo. Virou de costas e começou a caminhar de volta para o bosque. Tão logo assim o fez, novo choro surgiu do pequeno berço. O grande lobo e os demais de sua alcateia ficaram confusos e voltaram-se para ver o que acontecia.

O berço agora era feito de ramos espinhentos e em uma estopa encardida outro bebê, que também era o mesmo bebê, chorava. Um coiote de pelagem avermelhada e maior que os demais, surgiu furtivo próximo a ele, sem que ninguém percebesse como chegara até ali.

– E esse é meu! – disse, e carregou o bebê em sua boca, descuidadamente suspenso pela perna esquerda que sangrava entre seus dentes.

Lobos e coiotes encaravam-se rosnando em um misto de hostilidade e surpresa em um impasse que nenhum grupo se dispunha a resolver.

De todos os ventos, ao mesmo tempo, uma voz que possuía todos os timbres, disse:

– Não haverá peleja em meu bosque! Seu campo de batalha é o coração do pequeno.

Quietos, mas irados, lobos e coiotes voltaram para o lugar de onde vieram.

Phil estava de volta à tipi do sábio.

O jovem contou ao ancião sua visão.

O ancião ouviu tudo em silêncio.

Ao final ele disse ao caçador apenas uma frase: em sonho seu caminho foi reaberto, abandone o medo, entregue novamente seu espírito à guarda do lobo.

Phil fez perguntas ao xamã, mas ele permaneceu inerte e silente. Rapidamente o caçador entendeu que ali ele não obteria mais respostas.

Revelação Velada

 

Desorientado Phil abandou o assentamento dos Numunuu sem rumo certo.

O sonho ainda perturbava sua mente. Não, não era bem isso. O sonho ainda turvava a sua consciência, mesclava-se com ela. Toda árvore remetia ao bosque, toda nuvem à bruma que envolvia a clareira, toda criança àquelas que foram adotadas pelos animais, cada cão aos líderes das alcateias. Não era uma simples recordação, era como se o sonho adentrasse o mundo e, ao fazê-lo, era impossível decidir se isso tornava o sonho mais real ou o mundo mais onírico.

Durante horas seu cavalo o conduziu sem que fosse guiado. Lone não fazia a menor ideia de onde estava, nem há quanto tempo cavalgava. Em algum momento a montaria simplesmente parou e inclinou-se para que ele saltasse.

Com um gesto automático, do qual só seu corpo participou, simplesmente apeou.

Sem notar se o local era seguro, se havia lua no céu, simplesmente deitou-se ao relento.

Era muito difícil dizer em que lugar entre sono e vigília Phil se encontrava ao deitar-se. Se é que ele estava em algum ponto desta gradação, se é que sono e vigília podem ser considerados lugares. Talvez não houvesse gradação, e não fossem lugares. Ao menos o caçador nunca havia colocado as coisas nesses termos. Nesse dia específico, entretanto, parecia muito apropriado descrever a situação desta forma.

De repente notou que ao longe ele podia enxergar seu cavalo pastando o mato curto e seu próprio corpo estendido deitado a seu lado, abandonados em um grande ermo. No mesmo súbito percebeu que estava na cabana do Velho.

Com o sorriso largo dos bons tempos de juventude, com o corpo perfurado pelas balas de Ezequiel em seus últimos momentos, e seus cabelos e barbas desgrenhados do mesmo indefectível cinza do Lobo da visão anterior, o Velho o saudou:

– Meu filho, cada coisa em sua hora… lembra que eu te dizia isso sempre? Então, é chegada a hora de muitas coisas serem reveladas.

– Pai?… – a palavra saiu estranha de sua boca, era a primeira vez que a usava – O que está acontecendo?

– Eu sei, eu sei, tudo está muito confuso, né? Eu me lembro de como foi para mim, filho. Aquiete-se agora. Você ainda vai passar por muitas provações, precisará de energia, de força, e de fé. Vejo que você está mudado, você cresceu.

– Eu não entendo.

– Não há o que entender. É o mistério, meu filho, é o mistério. Eu prometi que revelaria coisas, mas nenhuma delas é mais importante que essa: o mistério.

– Continuo perdido.

– Sim, e continuará, enquanto quiser entender, continuará. Lembra do que você disse ao xamã em seu último encontro? Lembra da sensação que percorria todo o seu corpo quando eu o tirei do berço, naquela clareira, entre minhas presas?

– Aceitação.

– Sim, apenas aceite. Não há nada para entender. As coisas são como são.

– Mas você não era padre, vivia falando de Deus, lendo um monte de livros? Como pode isso? Você sempre estava procurando entender. Entender e ensinar.

– Você tem razão. Eu era, e sou padre. Eu era, e sou o Lobo. Creio em Deus. Creio na Natureza. Creio no Grande Espírito. Não creio nos nomes que os homens dão a estas coisas. Mas veja, sou homem também, e preciso das palavras ainda que sejam inúteis.

Estranhamente essa conversa começava a fazer sentido para a mente do caçador.

Antes que a visão desvanecesse, o Velho ainda disse uma última frase, que tirou Phil do transe e quebrou o fio de paz que começava a brotar em seu espírito:

– Sua mãe era uma boa mulher!

Natureza

Um frio intenso em sua mão esquerda o despertou. Phil estava deitado à beira de um córrego e sua mão pendia para dentro do fluxo de água. Levantou-se rápido, e antes que se desse conta dos arredores, ele simplesmente pôs-se de joelhos, fez uma concha com suas mãos e bebeu daquela água gelada e cristalina. Sentia uma sede tremenda. Saciada a sede, lavou o rosto e só então percebeu onde estava.

A paisagem era bonita. Paredes calcárias elevavam-se na margem oposta do córrego, vários ciprestes pendiam do paredão e um carvalho de folhas perenes estava fincado no meio do curso do pequeno rio. O sol nasceria em pouco tempo, mas já iluminava o cenário com uma luz indireta que realçava a beleza de todas as coisas.

Até onde sua vista alcançava era tudo esplendoroso. A sua exceção e da sela em seu cavalo, não havia vestígio algum de presença humana. Nenhuma estrada, nenhum rastro de botas ou rodas, nenhum entalhe nos troncos das árvores, nenhuma dilapidação no calcário do paredão, nem mesmo fumaça gerada em uma fogueira ou chaminé maculavam o céu pálido da manhã.

Phil sentiu-se grato por isso. A última coisa que desejava era encontrar alguém. Precisava do silêncio, precisava de paz. Precisava disso mais do que precisava de respostas para as questões que o despertaram da visão. Aos poucos as perguntas foram abandonando sua mente, as lembranças dissipando-se, seu espírito aquietando-se. Precisava simplesmente deixar-se fundir com a natureza, como se ele mesmo não existisse, se tudo aquilo que percebia fosse experimentado sem um sujeito que as percebesse.

Ficou nesse estado por um tempo curto, até um pouco depois do sol despontar. Quanto tempo? Impossível dizer, ali não existiam relógios, tampouco cronologia, nada inventado pelo homem. O tempo que ficou ali parado, foi aquele suficiente para revigorá-lo.

Ainda ajoelhado o caçador admirava o que sua vista alcançava. Inadvertidamente sua consciência reemergiu. Procurou uma palavra para descrever a cena. Lembrou-se da lição do velho sobre inutilidade das palavras. Inúteis, mas necessárias. Na falta de palavras ficou com o canto dos pássaros e o rumor leve das águas que mataram sua sede.

Uma brisa suave tocou seu rosto no mesmo momento em que um tímido raio de sol se esquivou dos galhos do carvalho e tocou seu rosto. Sentiu que era o momento de partir e que mais uma vez seria o cavalo que guiaria seu rumo.

O cavalo o guiou, desta feita, entretanto, Phil não perdeu a orientação, contava o tempo, media as distâncias. Havia matado a sede, é verdade. Mas ainda tinha fome. Assim que o cavalo se aproximou de uma pequena, porém especialmente verdejante, pradaria, Lone apeou, tomou as rédeas da montaria, e a conduziu até as franjas da pradaria, onde a amarrou a uma árvore de tronco fino. Seus passos eram muito pesados, qualquer caça seria alertada de longe.

O som dos passos do cavalo também o atrapalharia. O caçador precisa analisar meticulosamente o ambiente. Buscar vestígios, ouvir os deslocamentos, sentir o cheiro de eventuais presas. A sensação na preparação para a caçada era a mesma que sentiu ao despertar à beira do córrego, era preciso esquecer-se de si e fundir-se com a natureza, percebedor e percebido deveriam ser indiscerníveis.

Rapidamente encontrou os rastros nada sutis de uma javelina, o mato pisoteado com força, arbustos com suas bases escavadas, raízes expostas e mastigadas. Onde há uma, há várias, ele sabia. Uma já era o bastante, carne para alguns dias de viagem. Precisava agir rápido: javelinas são conhecidas três características: seu olfato apuradíssimo, suas vocalizações de alerta e sua velocidade de corrida. Abater um destes animais não era difícil e garantia farnel cheio. Enfrentar um bando célere e raivoso, com suas presas afiadas, isso era outra coisa. Coisa a se evitar.

A primeira coisa que fez foi camuflar seu aroma, espalhando restos das fezes da presa que rastreava pelas roupas. Como é sabido, Phil tinha um estômago forte. Depois sacou seu rifle e, agachado, deslocou-se lentamente. O ideal era abater a javelina no primeiro tiro, isso evitaria o chamado de alerta, e, com sorte, o estrondo do disparo afastaria o resto do bando.

A tática deu certo, alguns metros adiante localizou a caça aos pés de outro arbusto derrubado, saboreando suas raízes. Bastou uma bala, o animal caiu sem que pudesse dar o alarme. Phil ouviu o som de outras javelinas afastando-se em rápida disparada em várias direções, arbustos farfalhavam e agitavam-se com o choque.

Calmo, mas atento, Phil arrastou o animal abatido até onde deixara o cavalo. Ali seria mais seguro preparar a comida.

Lone estava feliz, conectado com a natureza, a sua natureza, e desconectado do mundo dos homens.

Só e mal acompanhado

Durante algumas semanas a paz durou. Mas ela não duraria muito. Em seu íntimo sabia disso, lutava com todas as suas forças para não pensar para além da tranquilidade e fartura que os dias de caçada solitária traziam. Uma caça proveitosa e autossuficiente, evitando pessoas e comércio. A verdade é que ele estava fazendo exatamente o que criticava há pouco em seus amigos e demais pessoas, tentava esquecer da eminência do fim do mundo e levar uma vida normal. Tentava se enganar, não conseguia.

Já estava próximo de território habitado. As marcas de pesadas diligências, vestígios de batalhas entre brancos e indígenas, o azul do céu turvado de fumos, não deixavam dúvidas.

Lone estava excepcionalmente cansado, já fazia pelo menos uma semana. Decidiu que caçar não era a melhor coisa a fazer em seu estado atual. Exaustão e mente conturbada não ajudariam em nada. Resolveu pescar, não renderia tanta comida, mas era mais garantido e menos arriscado e ainda poderia ajudá-lo a relaxar e desanuviar a mente.

À beira de um pequeno lago, Lone preparava uma vara, espetava a isca no anzol e arremessava a linha para o ponto mais distante possível na água. Durante este movimento, inclinou-se para a frente o suficiente para ver sua imagem refletida na água, ainda calma ali às margens do lago, sem ainda ter sido atingida pela interferência das ondas originadas pelo choque da boia na superfície do lago. E foi aí que seu olhar cruzou o seu olhar refletido, ou melhor, o olhar de Ezequiel.

O gêmeo saudou-o com um sorriso zombeteiro.

– Até quando você acha que pode fugir? – disse Ezequiel malicioso.

– Não estou fugindo, estou procurando meu caminho.

– Seu caminho? Estamos todos no mesmo caminho. Todos os caminhos levam a um só destino, o Fim.

– Isso pode ser evitado.

– Não, não pode. Você sabe disso tão bem quanto eu. Talvez até melhor. Por exemplo, você achou que tinha me tirado do caminho, no entanto, cá estou eu, mais perto que nunca.

– Já despachamos vários diabos, já evitamos o fim uma vez.

– Há muitos mais de onde vieram aqueles, e eles não param, nem pararão de chegar. Não há como lutar contra todos. Ainda mais um fraco como você. Simplesmente aceite isso. Não foi o que os velhos te disseram? Hahahaha!

– Não, eles disseram para aceitar o meu caminho.

– Ah, faça-nos um favor. Aceite que não há nada o que você possa fazer. Aceite que apenas um de nós está preparado para lidar com isso da forma que a situação pede. Não há como lutar contra eles. E você sabe o que dizem, né? Se não pode vencê-los, junte-se a eles.

– Isso é tolice!

– Aí é que você se engana. Isso é um fato. Você está se sentindo cansado, não é? Sabe por quê? Porque eu também estou seguindo meu caminho quando você pensa que está dormindo.

– Desgraçado!

– Sim, desde que nasci sou um desgraçado. As graças, meu irmão, ficaram todas para você. Eu só colhi as desgraças dessa terra, desse tempo malditos. Mas isso me dá uma grande vantagem sobre quase todos, ainda mais depois que você venceu nosso duelo: não tenho mais nada a perder! Hahahaha!

– Você precisa parar com isso!

– Mas já?! Eu mal comecei! Ah, meu irmão, se você soubesse dos segredos e prodígios que tenho aprendido… você simplesmente iria deixar que eu assumisse nossa vida. Só aceite, vai ser tudo tão mais fácil para nós…

O discurso de Ezequiel foi interrompido pela tensão na linha. Um peixe havia mordido a isca e debatia-se debaixo d’água. Phil mal conseguiu puxá-lo para fora, por pouco não deixou a vara cair no lago. Era um peixe bonito e graúdo. Lone, entretanto, devolveu-o à água. Sentiu-se muito grato pelo favor que o peixe involuntariamente havia lhe feito.

Ainda assim, a fome apertava. Colocou nova isca e voltou a pescar, mas agora sem esperança de que a pesca poderia trazer-lhe alguma tranquilidade para a alma, apenas algum conforto para o corpo.

Sabatina

Mais algumas luas se passaram, Ezequiel por vezes voltou a procurá-lo, sempre repetindo a mesma ladainha. Phil aprendeu a ignorá-lo, e, de certa forma, até ficou-lhe grato por retirar-lhe do alheamento a que vinha se entregando. Para seguir em seu caminho era preciso estar alerta. Ezequiel era o que o mantinha vigilante.

Com mais controle da situação, voltou a caçar, em uma de suas andanças deparou-se com uma massa de vegetação que prometia entregar alimento para seu corpo e exercício para sua mente.

Lone adentrou o bosque buscando por sinais que lhe indicassem algo que pudesse aplacar sua fome por um ou dois dias, até uma próxima oportunidade. Não buscava nada grande, portanto. Lebres, gambás, um porco-do-mato, algo que pudesse cozinhar em um espeto improvisado e pudesse carregar sem pesar demais o cavalo. Trabalho simples para um caçador experiente como ele. Logo detectou rastros de uma doninha, logo de mais outra, parecia haver um ninho por perto.

A atenção de Phil estava toda no seu ambiente, doninhas são pequenas, mas ariscas. Seria fácil perdê-las de vista se se descuidasse. Não foi difícil para ele perceber que algo estranho estava acontecendo. O bosque começou a ficar muito silencioso. Aos poucos os pássaros deixavam de cantar e o dia parecia mais escuro do que deveria, mesmo descontando a vegetação mais densa.

Redobrada a atenção, o caçador pôde sentir que algo o observava. Algo que não era deste mundo. Ele não podia contar, contudo, que não era apenas o seu corpo que era observado, sua própria mente era vigiada. Quando o que quer que fosse aquilo que o vigiava notou que fora descoberto, uma bruma leve começou a tomar o lugar. A mesma bruma da visão ocorrida na tipi do sábio.

– Então você se diz um caçador? – a voz parecia produzida pela névoa. Uma voz rouca e entrecortada, algo como um sotaque era claramente notável, mas ainda não era bem isso. Era uma dificuldade em produzir sons humanos, salpicada de pigarros, rosnados e vogais prolongadas e consoantes quase indistintas.

Phil permaneceu quieto e à espreita, tentando precisar de onde vinha a pergunta. Sem sucesso, mesmo seus sentidos treinados não eram capazes de revelar.

– E então? Você se diz um caçador e nem sabe de onde minha voz vem? – o tom da voz era desafiador, mas sóbrio, sem traço de malícia ou deboche.

Manteve o silêncio. Tentou serenar sua mente, não queria dar sinais de medo ou apreensão.

– Pelo menos sua mente é furtiva como seu corpo. Menos ruim. Mas volto a perguntar, você se acha um caçador?

Percebendo que de nada adiantava e que sua própria mente estava sendo sondada, decidiu responder.

-Sim, é meu ofício.

– Ofício? Ofício?! Você acha que caçar é um ofício? Algo que se faz em troca de dinheiro? Foi assim que te educaram?

– Na verdade, não.

– Mas eu sinto, pelo seu cheiro que você caça por dinheiro.

– Sim, caço. Mas essa não foi a educação que me deram.

– Por que abandonou sua educação então?… Você fede como todos os brancos.

– Não me diga isso, não sou como eles.

– Ha ha ha! Eles? Como assim, eles?!

– Não fui criado entre eles. Não tenho prazer em matar por dinheiro, animal ou gente. Caço para sobreviver. Às vezes é preciso carne, às vezes preciso de dinheiro para outras coisas.

– Ainda assim troca vidas por dinheiro.

– Sim, é verdade.

– Tolo! Pelo menos não é covarde. Não tem a fala mansa do seu irmão.

– Você o conheceu?!

– Se ele está aqui na minha frente, como não o conheceria?!

– Aqui?! Não pode ser, eu o matei!

– Sabemos que isso não é verdade.

– Sim.

– Realmente, você não é como ele. Por isso que naquele dia eu o resgatei, usando o Velho por intermediário. Ainda assim, você não é digno.

– O que você sabe do Velho?!

– Eu sou o Velho, mas o Velho não sou Eu. É isso que sei. E sei também que você não é digno se ser chamado caçador. Caçar doninhas? Doninhas?! Isso não é caça. Isso é massacre! Matar mais do que a sua fome pede? Isso não é caça, é ganância! Você é como qualquer outro branco.

– Sou apenas humano. Preciso me abastecer, penso no amanhã.

– Esse é um mal de sua espécie. Pensar, imaginar um amanhã. Isso não existe. Em um ponto, porém, você tem razão, nenhum humano realmente escapa disso, branco, vermelho ou cor de arco-íris. Sabatina encerrada. Preciso saber se você é ou não é um caçador.

Alcateia

A bruma materializou-se na forma do Lobo Cinzento, e atirou-se em carga furiosa contra Phil, que se esquivou como pôde. Por puro reflexo, escapou do bote, mas a manga esquerda de sua jaqueta ficou destruída, reduzida a fiapos.

O Lobo estava muito próximo, não tinha como sacar e apontar o rifle. “A machadinha!” – pensou. Em um piscar de olhos arremessou-a contra a fera. Estava certo de que não poderia errar daquela distância. Expectativas frustradas, além de robusta a besta também era ágil, extremamente ágil… Abaixou-se apenas o suficiente para desviar do projétil, levando a cabeça rente ao chão e mantendo as patas traseiras de pé. Phil poderia jurar que neste momento divisou um sorriso no rosto do Lobo.

O animal de forma graciosa e violenta saltou impulsionado pelas patas traseiras em um movimento fluido e contínuo em composição com sua esquiva anterior. Desta vez o caçador não teve sorte, o Lobo derrubou-o ao chão com uma potente mordida em seu joelho direito.

Foi o momento de Phil puxar seu facão. O Lobo continuava muito próximo, e caído no chão, sobre o rifle, mais uma vez não haveria como sacá-lo. Nem tentou golpeá-lo. Apenas procurou mantê-lo afastado enquanto arrastava-se costas procurando uma árvore como esteio para pôr-se de pé novamente.

– Tolo, você pensa que sozinho, com uma faca pode comigo? Apenas aceite que hoje você é presa. – disse o Lobo avançando pacientemente.

Sua perna sangrava muito. A dor era enorme. “Se ao menos os rapazes estivessem aqui… Tony, com a mira infernal dele!”. Bastou que pensasse isso, e o estampido de um tiro cortou o silêncio do bosque mutado. Um ganido fraco fez-se ouvir. O Lobo fora baleado. Atrás dele, e de frente para Phil, o semblante diáfano do “homem de um chifre só” fazia-se notar.

– Isso! Não é vergonha alguma caçar em companhia! Seus amigos são parte de sua força!

O tiro certeiro de Tony deu tempo o bastante para que Phil voltasse a estar de pé. Ofegante ele puxou o rifle e com a última de suas forças atirou contra o animal, acertou, e um buraco abriu-se em seu flanco direito.

Lone, sentia a vida esvaindo pelo sangue que jorrava de seu joelho, provavelmente a femoral também havia sido atingida. “Que bom seria se Brody estivesse aqui para encomendar minha alma”. À distância ao lado da silhueta de Tony ele enxergou claramente os contornos generosos do corpanzil de seu amigo, agora padre, e pode ver essa sombra distante fazendo um sinal da cruz em sua direção.

– Já está pedindo por sua alma? – o Lobo pulou novamente contra Phil. O rombo nas costelas ia regenerando-se com celeridade miraculosa.

Lone só teve tempo de, com ambos os braços, empurrar a árvore e projetar seu corpo o mais longe possível dali, caiu sobre uma moita fofa como um saco de feno. “Sorte, diria oLou!”, pensou de si para si, enquanto o inimigo já recuperado avançava sobre ele novamente. No último instante, quando a bocarra iria estraçalhar sua jugular, a mordida foi interrompida por um coco que caiu certeiro na cabeça da besta, derrubado por duas andorinhas-africanas que sobrevoavam o bosque e o carregavam em consórcio!

Lone não acreditou no que aconteceu. Instintivamente olhou para o mesmo ponto distante no bosque onde estavam as sombras de seus dois outros amigos. Lá estava o terceiro, fácil de distinguir, pois mesmo sua sombra sorria com aquela franqueza e despreocupação, que só Lucky possuía.

– A alcateia inteira! Isso é que nos dá força! A alcateia! – e deixando os modos e palavras humanos, o Lobo uivou, um uivo sobrenatural que fez a espinha de Phil arrepiar-se até a ardência e fazer as sombras de seus amigos dissiparem-se. Ao som do aulido, vários outros lobos começaram a surgir de todos os cantos. Eles observavam de longe, a uma distância respeitosa do Cinzento.

Pacto

Lone já não podia mais, não tinha mais energia, não tinha mais força, e todo o resto de sua fé desvaneceu com a sombra de seus amigos. Ainda assim não abandonou a luta, naquele momento ele era a Caça. Usou o rifle como uma muleta e simplesmente avançou conta o Lobo, lutava contra toda a esperança. Sem pressa alguma o animal aguardou Phil aproximar-se, quando ele estava perto o bastante golpeou o esterno do caçador com as duas patas dianteiras enquanto apoiava-se nas traseiras.

– Você vê? Isso, para você, é um pouco mais parecido com a Caça. Na Caça presa e caçador são uma só coisa: Carne! Se você caça doninhas, você se torna uma enquanto a caça, rebaixa-se ainda que vitorioso. É isso que você é? Uma doninha? Já a doninha, ela se torna humana enquanto caçada por você, ela se eleva ao resistir a sua vilania. Vocês são uma só e mesma coisa: Carne! Vocês e tudo o que os cerca.

Em vão o homem tentava soltar-se, debelar-se do pesado animal, mas era detido com precisos movimentos das patas de seu algoz. O domínio do Lobo sobre o corpo de Phil era tal que houve tempo para este longo discurso, que ainda continuou:

– Se eu realmente tivesse caçado você hoje, o que isso me tornaria? Humano? Sim! Nem imagine isso… eu nunca cacei ou caçaria um humano, não me rebaixaria a tal, apenas o testei. Ao me enfrentar até o fim, ao me caçar até o fim, você mostrou que, talvez, seja digno. Sua postura durante nosso combate tornou-o, por um instante, Eu.

Ao ser pronunciada a palavra “Eu”, Lone viu seu próprio corpo abaixo de si, pálido, arranhado, sangrando, com a saliva do lobo pingando sobre o rosto. Viu seu rosto olhando para si com o mesmo sorriso que o Cinzento havia ensaiado mais cedo. Quando tentou falar algo para expressar surpresa, emitiu um uivo desengonçado. Seu rosto abaixo de si, entretanto, disse o seguinte – com a voz inumana do Lobo:

– Por enquanto esta é a minha dádiva. Um pacto provisório. Você verá que de agora em diante será um pouco como Eu, e que Eu poderei atender seus chamados, se forem dignos. Quando aquele ser asqueroso não estiver mais aí, dentro de você, voltaremos a conversar. Até lá, já que gosta tanto disso, pense: qual é a única presa realmente digna de ser caçada?

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