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A Forja apresenta: Entrevista do RPGames Brasil com Rafael47
Neste episódio, o Rafael 47 sentou na bancada para responder a uma série de perguntas enviadas pela equipe do RPGames Brasil a respeito do projeto do RPG Next e do cenário atual de jogos no país.
Entre os temas abordados, rolou conversa franca sobre:
- Os bastidores e desafios de manter os projetos do RPG Next rodando;
- Conselhos práticos para quem quer criar e publicar RPG no Brasil hoje;
- A realidade do mercado independente, comunidade e produção de conteúdo.
Se você curte entender o que rola por trás do escudo e quer acompanhar a nossa visão sobre o ecossistema brasileiro de RPG, não deixe de conferir!
| ATENÇÃO: Esse podcast é recomendado para maiores de 16 anos. |
Com a participação de:
- Rafael 47.
Edição de:
- Rafael 47.
Uma produção RPG Next.
Versão em texto da entrevista do RPGames Brasil com o Rafael47:
1. Para começar, como foi seu primeiro contato com o RPG e em que momento você percebeu que essa paixão poderia se transformar em um projeto como o RPG Next?
Resposta:
O meu primeiro contato com o RPG é difícil de estabelecer com uma certeza exata, porque foram várias lembranças que acabaram se somando.
Uma das primeiras foi quando eu era criança, por volta dos 10 aos 12 anos. Eu fui com meu pai e meu irmão numa loja da Mesbla no shopping — que nem existe mais hoje, mas era uma loja de departamentos que tinha de tudo — para escolher um jogo de aniversário pro meu Master System. No meio de vários títulos, me chamou muito a atenção uma capinha com uns personagens: um cara com espada e armadura, uma garota com escudo e espada, um com machado, um mago e um bichinho que parecia um Pikachu. Era o Phantasy Star. Na capa estava escrito “RPG” ao lado de “4 Mega”, que era o tamanho do cartucho. Eu perguntei pro meu pai o que era aquela sigla “RPG” e ele não sabia; quando fui jogar, vi que era um jogo de aventura e exploração.
Mais ou menos nessa mesma época, por volta de 1994, aos meus 13 anos — no começo do Plano Real —, teve uma feira do livro na escola. Minha mãe me deu uma quantia que dava para comprar uns três livros normais, mas eu bati o olho num livro gigante, futurista, com uma arte cyberpunk de um beco com pessoas conectando cabos na cabeça. Estava escrito Shadowrun. Eu gastei todo o meu dinheiro nele. Fui tentar ler, não entendi nada na época, fiquei perdido e acabei abandonando porque não tinha maturidade ainda.
Junto a isso, também joguei uma partida meio improvisada de tabuleiro que depois entendi que era o D&D da Grow (ou o First Quest); comprei livrinhos-jogos da série Aventuras Fantásticas; e ganhei o Hero Quest da Estrela, que vinha com “O ABC do RPG” na caixa e passava comercial na TV — joguei com meu irmão meio que tentando decifrar as regras sozinhos. Mais tarde, comecei a comprar a revista Dragão Brasil nas bancas e adquiri o Dungeoneer do Steve Jackson, que realmente ensinava a jogar RPG de mesa de fato. Ninguém chegou para mim e disse “Rafael, isso aqui é RPG”; fui descobrindo tudo sozinho entre bancas de jornal, videogames e livros.
Depois de um longo período afastado, o momento em que essa paixão começou a caminhar para se tornar o RPG Next foi por volta de 2015.
Eu já vinha ensaiando um retorno: entre o mestrado e as aulas de inglês que eu lecionava, eu cheguei a usar o D&D 4ª Edição com turmas pequenas para ensinar gramática e vocabulário através do jogo. Já em 2015, trabalhando na universidade junto com o Sky na produtora de jogos, eu estava com muita vontade de voltar a jogar com frequência. Só que eu não queria apenas jogar e deixar a partida se perder no ar.
Naquela época, eu já escutava podcasts gringos de pessoas jogando RPG desde 2010/2011 para matar a vontade, e o Jovem Nerd tinha acabado de lançar os primeiros episódios de RPG deles em áudio. Eu vi aquilo e pensei: “Caraca, que legal, dá para fazer isso!”. Falei com o Sky: “Por que a gente não grava as nossas partidas e lança como podcast?”.
O nome RPG Next surgiu justamente dessa fase, porque o D&D 5ª Edição ainda estava em desenvolvimento e era chamado oficialmente de D&D Next. Um dia, combinando por e-mail, a gente escreveu: “Quando que a gente vai lá jogar o RPG next?”. O nome pegou e acabou virando o projeto.
2. O RPG Next está no ar há mais de uma década produzindo podcasts, campanhas e conteúdos sobre RPG. Como nasceu o projeto e qual era a proposta inicial?
Resposta:
O RPG Next completou 11 anos agora em 2026 — a gente começou lá em maio de 2015.
O projeto nasceu diretamente daquela conversa que tive com o Sky na produtora de jogos da universidade onde trabalhávamos. Eu estava sentindo muita falta de jogar RPG, mas tinha essa inquietação de não querer apenas jogar uma partida solta e deixar aquela história se perder no tempo. Como eu já vinha consumindo podcasts gringos de mesas de jogo e o Jovem Nerd tinha acabado de publicar as primeiras aventuras deles em áudio, a ideia foi juntar as duas pontas: reunir os amigos para jogar e gravar as sessões.
A proposta inicial era justamente essa: registrar as nossas partidas de RPG de mesa e lançá-las em formato de podcast para que outras pessoas pudessem acompanhar a história, gerando conteúdo a partir da nossa própria vontade de jogar. Foi dessa dinâmica de marcar as primeiras sessões de teste — aproveitando a transição das regras que na época eram chamadas de D&D Next — que o grupo se estruturou e o projeto foi para o ar com o lançamento das nossas primeiras campanhas.
3. O podcast foi, durante muitos anos, uma das principais portas de entrada para novos jogadores no Brasil. Na sua visão, qual o papel desse formato na divulgação do RPG?
Resposta:
Na minha visão de consumidor, quem fez o maior trabalho de divulgação e foi a verdadeira principal porta de entrada para novos jogadores no Brasil foi a revista Dragão Brasil. Ela trazia muito conteúdo de diversos sistemas, ganchos de aventura, dicas de mestre e novidades numa época em que não tínhamos esse acesso fácil à informação.
O podcast veio como uma vertente posterior importantíssima. Com o surgimento do formato e a facilidade de produção em relação ao vídeo, ele se tornou um excelente canal de difusão. Depois vieram os vídeos no YouTube, que são bem mais trabalhosos de produzir, mas chamam muito mais a atenção do grande público — vide o trabalho gigante do Cellbit com o Ordem Paranormal e o próprio Jovem Nerd com as publicações deles. Mas vale pontuar: não foi o RPG por si só que atraiu essa massa inicial, e sim grandes criadores de conteúdo que já tinham milhões de seguidores em outras áreas e resolveram apresentar o RPG para o público deles.
O grande papel e a maior vantagem do podcast em relação a outros formatos é a conveniência para conteúdos de longa duração. Acompanhar uma sessão de RPG exige tempo, e o áudio facilita demais essa experiência. É muito mais simples você ouvir um áudio longo enquanto faz outras coisas no dia a dia — limpando a casa, dirigindo ou trabalhando — do que passar horas parado na frente do celular ou da tela do computador olhando para um vídeo. Inclusive, acho que muita gente que consome mesas no YouTube deixa o vídeo rodando em outra janela e fica apenas ouvindo.
Ao mesmo tempo, existe uma confusão comum do público leigo com a sigla RPG: as pessoas veem um jogo eletrônico de fantasia, ou até mesmo um jogo como Magic: The Gathering, e acham que tudo que tem elfo, demônio e monstro é RPG de mesa. Elas conhecem a estética, mas não a dinâmica do jogo em si.
Então, vejo o podcast como parte fundamental de uma crescente: primeiro as revistas (ao lado de videogames e eventos presenciais, onde as pessoas podiam experimentar de fato), e depois os podcasts, que prepararam o terreno na internet e ajudaram a espalhar a dinâmica real de uma mesa antes da explosão dos formatos em vídeo.
4. Hoje o RPG Next reúne podcasts, vídeos, transmissões e uma comunidade bastante ativa. Como você equilibra a produção de tantos formatos diferentes sem perder a identidade do projeto?
Resposta:
Eu não sei bem se posso dizer que consigo equilibrar tudo perfeitamente, e nem posso cravar que o projeto não perde a sua identidade.
O RPG Next nasceu com a premissa de ser um grande guarda-chuva para vários programas diferentes. Dessa forma, cada programa tem espaço para construir a sua própria identidade:
- A Forja: nosso podcast mais coringa, focado em bate-papos sobre RPG e cultura nerd;
- Contos Narrados: focado exclusivamente em histórias contadas e totalmente sonorizadas;
- Tarrasque na Bota: o nosso carro-chefe das aventuras e campanhas jogadas;
- Regras do D&D e Regras do GURPS: focados na leitura e explicação detalhada dos manuais;
- Além de novos conteúdos e parcerias que vão surgindo, como o pessoal do Neuronautas.
Para equilibrar essa produção multiformato sem sobrecarregar a equipe, a gente adota um fluxo prático: nós fazemos a transmissão ao vivo da gravação. Com isso, já geramos o conteúdo em vídeo e, dessa mesma transmissão, extraímos o áudio para editar e alimentar os feeds de podcast.
Sobre a questão da identidade, ela também se apoia no fato de que os programas não pertencem exclusivamente a uma única pessoa. Eu sempre incentivei a rotatividade: se alguém quer mestrar ou jogar no Tarrasque na Bota, faça; se quer conduzir A Forja, faça. A Forja, por exemplo, nasceu com o Pedro Quitete lá atrás; o Contos Narrados começou com o Fernando, depois eu assumi e editei, enquanto outras pessoas gravavam as vozes. O único programa que mantenho estritamente comigo é o Regras do D&D, porque faço a leitura e os comentários sozinho — se colocasse mais gente para debater, os episódios passariam facilmente de três horas.
Por fim, eu não vejo problema caso a identidade do projeto passe por mudanças. O RPG Next tem mais de uma década de estrada; as pessoas mudam com o passar dos anos, e é natural que a identidade do projeto se adapte e acompanhe essas transformações. Se perguntarmos para a comunidade, certamente encontraremos de tudo: pessoas que preferiam o estilo do começo, pessoas que acham que mudou para melhor e outras que se conectaram justamente com a fase atual. A gente simplesmente vai se adaptando e permitindo que os formatos e as pessoas evoluam.
5. Além de criador de conteúdo, você também atua como Mestre profissional. Como surgiu essa atividade e quais diferenças existem entre mestrar para amigos e conduzir mesas para clientes?
Resposta:
Atualmente eu não estou mais atuando como mestre profissional, mas foi uma atividade que exerci bastante durante a pandemia.
Ela surgiu por uma necessidade financeira direta. Como eu era professor horista na universidade, com o impacto da pandemia e a queda na procura por turmas, a instituição reduziu a minha carga horária e a minha renda principal caiu drasticamente. Eu precisei encontrar uma forma de me sustentar. Como eu já estava há cerca de cinco anos e meio produzindo conteúdo no RPG Next, as pessoas já conheciam o meu trabalho e a minha reputação como mestre. Isso facilitou muito a divulgação: eu montei uma aventura fechada, ofereci o serviço e vários ouvintes e membros da comunidade contrataram as mesas. No total, atuei por cerca de dois anos e meio a três anos nessa função e conduzi em torno de dez mesas com a mesma aventura (das quais sete foram até o fim da campanha).
Sobre as diferenças entre conduzir mesas para amigos e para clientes pagantes, curiosamente eu não senti tanta diferença na narrativa em si — entreguei rigorosamente a mesma qualidade de experiência para ambos.
A grande distinção é que, quando estou mestrando para amigos no RPG Next, quase sempre estamos gravando conteúdo para publicação. Isso me torna um mestre muito mais chato e exigente nos bastidores: eu preciso cobrar silêncio no ambiente, microfones bem configurados, dicção e cuidados técnicos com a gravação. Com os clientes, a cobrança técnica era muito menor; eu só precisava garantir que o áudio de um não atrapalhasse os colegas de mesa.
Por outro lado, o maior desafio com clientes é a gestão de grupo. Geralmente, as pessoas que compram as vagas não se conhecem previamente. Se a convivência e os perfis de jogo não baterem, você acaba lidando com insatisfações. Nas poucas mesas que não chegaram ao fim, o motivo foi exatamente a falta de liga entre os jogadores: entrava um, saía outro, o grupo esfriava e a mesa acabava se desfazendo. Manter essa harmonia entre desconhecidos é o ponto mais delicado quando se mestra profissionalmente.
6. Você investe bastante em ferramentas como Foundry VTT, mapas animados e trilhas sonoras dentre outros recursos para criar experiências mais imersivas. Até que ponto a tecnologia pode enriquecer uma sessão de RPG sem substituir a imaginação dos jogadores?
Resposta:
Esses recursos realmente elevam o nível de imersão da sessão. O Foundry VTT nós compramos há bastante tempo com o apoio financeiro dos padrinhos e madrinhas do projeto (uma licença única de 50 dólares), e também mantemos assinaturas, como a do Tabletop Audio no Patreon, que entrega trilhas e ambiências fantásticas, e assinaturas de mapas animados.
Sobre a tecnologia substituir ou não a imaginação, eu não vejo isso como uma substituição, mas sim como uma complementação.
Se eu tivesse que escolher estritamente entre o visual e o sonoro para uma mesa de RPG, eu escolheria o áudio sem pensar duas vezes. A parte sonora abraça muito melhor a sensação de imersão do que a imagem. É difícil para o jogador ficar “imaginando” uma música de fundo ou a atmosfera sonora de uma caverna enquanto joga. Eu jogaria tranquilamente um sistema tático como D&D sem nenhum mapa, usando apenas o teatro da mente e o áudio.
Já a parte visual tem prós e contras muito claros:
- Alinhamento e clareza: quando você descreve verbalmente um cenário ou um enigma complexo, cada jogador pode criar uma imagem mental completamente diferente na cabeça dele, o que às vezes gera ruído de comunicação. Jogar uma imagem de referência ou um quebra-cabeça visual resolve isso na hora.
- Referência espacial e memória: mapas e grids ajudam os jogadores a se localizarem e lembrarem onde a aventura parou. Se o grupo explora uma cidade com vários pontos de interesse, ter um mapa visual evita que as pessoas se percam na geografia do lugar.
Por outro lado, quando você mostra a imagem exata de um monstro, você de fato “mata” a imaginação daquela aparência física específica, porque todo mundo passa a ver a mesma ilustração. Mas isso não encerra a imaginação: cabe ao mestre descrever tudo aquilo que a imagem não mostra — o cheiro pútrido da criatura, a textura da pele, a proporção colossal que não cabe na tela e o som ameaçador que ela emite. A imagem serve como base, e a imaginação preenche o resto.
É exatamente a mesma relação entre ler um livro e assistir a uma adaptação no cinema, como acontece com Senhor dos Anéis ou Harry Potter. O filme não anula a existência do livro e nem substitui a experiência da leitura; são mídias com propostas diferentes que se complementam perfeitamente dependendo de como você escolhe utilizá-las na sua mesa.
7. Ao longo desses anos entrevistando, narrando campanhas e convivendo com a comunidade, quais foram as maiores mudanças que você percebeu no perfil do jogador brasileiro?
Resposta:
Essa é uma pergunta difícil de cravar com precisão do ponto de vista exclusivo do jogo, porque eu não costumo mestrar com frequência em eventos abertos. Eu jogo basicamente com o meu grupo fechado aqui no RPG Next. Se eu estivesse rodando mesas em feiras e recebendo novos jogadores toda semana, eu teria um termômetro exato do jogador em si.
No entanto, eu estou há 14 anos lecionando na universidade. Já acompanhei cerca de 14 gerações de estudantes entrando com 17 ou 18 anos em sala de aula, além de orientar TCCs e participar de bancas. A partir dessa convivência, o que eu percebo não é uma mudança restrita ao jogador de RPG ou a uma faixa etária específica, mas sim um reflexo do momento tecnológico e cultural que afeta todo mundo: as pessoas estão lendo muito pouco ou quase nada.
Hoje nós somos bombardeados por estímulos rápidos em redes sociais, vídeos e conteúdos dinâmicos. Quando eu era mais jovem, lia muito mais simplesmente porque não existiam smartphones nem essa enxurrada de plataformas de vídeo disputando a minha atenção; era natural pegar um livro físico na biblioteca e devorar aquele material.
No RPG, isso tem um impacto direto. O livro em formato texto ainda é a maneira mais acessível e barata de aprofundar um conhecimento e transmitir regras complexas. Só que hoje as pessoas têm uma enorme dificuldade de sentar e ler um manual do começo ao fim. Vejo isso nitidamente na faculdade: quando peço para os alunos buscarem os livros de fundamentação teórica para o trabalho deles, muitos não abrem o material, não folheiam as páginas e preferem delegar para uma inteligência artificial trazer um resumo mastigado.
O problema dessa abordagem é que, quando você não passa os olhos pelas páginas, você perde os detalhes, os diagramas, os exemplos e a descoberta espontânea de ideias que chamam a atenção pelo caminho.
Se eu tivesse que apostar na principal transformação do perfil do jogador brasileiro hoje, seria essa: ele sofre das mesmas consequências da sociedade atual conectada. Há uma tendência de buscar o caminho mais rápido e resumido — consumindo regras por vídeos curtos ou explicações de terceiros —, encontrando muito mais resistência em sentar, ler o livro com calma e se aprofundar sozinho nas regras e no cenário do jogo.
8. O RPG Next mantém uma comunidade apoiada por assinantes e colaboradores. Qual é o maior desafio para manter um projeto independente ativo por tantos anos?
Resposta:
O maior desafio para manter um projeto independente ativo por tantos anos não é a arrecadação financeira em si, mas sim encontrar e manter pessoas com tempo e disposição para produzir conteúdo de forma constante.
Nós criamos a nossa campanha de financiamento coletivo recorrente em 2016, um ano após o início do projeto, por incentivo direto dos próprios ouvintes. O apoio dos padrinhos e madrinhas é fundamental: ele cobre custos essenciais, paga serviços pontuais (como servidor, infraestrutura do site com programador e, quando viável, edição ou marketing), além de trazer previsibilidade financeira. Inclusive, mantemos uma planilha aberta de prestação de contas onde qualquer apoiador pode auditar exatamente cada centavo que entra e sai do projeto.
No entanto, nenhuma campanha recorrente de financiamento coletivo voltada para produtores de RPG independentes arrecada o suficiente para custear e remunerar toda a equipe de produção. O RPG Next, por exemplo, gira em torno de R$ 2.000 por mês no Apoia-se; o RPGuaxa, que está à frente, arrecada cerca de R$ 3.000. Isso é menos de dois salários mínimos. Se fôssemos depender desse dinheiro para remunerar a hora de trabalho de quem pesquisa pauta, grava, mestra, joga e edita programas longos toda semana, seriam necessárias dezenas de milhares de reais por mês.
Por conta disso, o projeto se sustenta há 11 anos no trabalho voluntário e colaborativo de quem está ali na linha de frente. Hoje nós não temos dinheiro para pagar editores fixos para tudo: eu edito programas, o Vinícius edita, gravamos nos nossos momentos de folga e usamos feriados para botar episódio no ar.
O grande gargalo é a vida real das pessoas. Manter o fôlego ao longo de mais de uma década exige colaboradores que estejam dispostos a doar seu tempo e esforço puramente pelo prazer de produzir e ver a coisa acontecer — por uma motivação intrínseca, e não por expectativa de retorno financeiro ou fama rápida. Ter gente disponível e comprometida com essa rotina a longo prazo é o que realmente define a sobrevivência de um projeto independente.
9. O canal também produz episódios voltados para técnicas de mestragem, Sessão Zero, regras e boas práticas. Na sua opinião, qual é o erro mais comum cometido por mestres iniciantes?
Resposta:
Para mim, o erro mais comum do mestre iniciante é tomar a decisão de jogar RPG e, antes de colocar o jogo na mesa, querer criar o próprio mundo do zero, inventar um cenário gigantesco e construir uma campanha inteira em cima dele.
Quando a pessoa faz isso, acontecem duas coisas: ou ela vai demorar meses e meses para conseguir marcar a primeira sessão, ou ela simplesmente nunca vai jogar RPG na vida, porque se perde no gigantismo do projeto.
Se eu pudesse dar uma dica prática para quem está começando a mestrar agora, seria: não comece pelo caminho mais longo, difícil e complexo do RPG, que é a construção de mundo (worldbuilding) e grandes campanhas autorais.
O caminho mais saudável para o iniciante é muito mais simples:
- Leia os livros do sistema: pegue o Livro do Jogador e o Livro do Mestre (no caso do D&D, ou o livro básico do sistema que você escolheu) e leia com calma. Não precisa decorar nada; em uma semana ou no máximo um mês você consegue ler e entender como as mecânicas funcionam.
- Pegue uma aventura pronta publicada: pode ser oficial ou de terceiros, não importa. Escolha uma aventura curta, pensada para duas ou três sessões no máximo.
- Estude e ajuste o básico: dê uma lida na aventura, faça pequenas adaptações para o seu gosto e já marque com seus amigos para jogar.
Você vai sentar na mesa, vai errar um monte de coisa nas primeiras sessões — o que é absolutamente normal —, vai terminar a aventura rápida, pegar outra pronta e repetir o processo. É jogando aventuras curtas que você desenvolve o ritmo de narrativa, aprende a lidar com o improviso dos jogadores e ganha bagagem prática sem se afogar na criação de um mundo antes mesmo de rolar o primeiro dado.
10. O RPG NEXT superou as barreiras do RPG com o projeto “Guerreiros do Bem”. Como surgiu essa ideia de aliar RPG e projeto social? Qual a importância do projeto e como a comunidade pode continuar participando?
Resposta:
A ideia do Guerreiros do Bem nasceu lá em 2016, logo no momento em que criamos a nossa campanha de financiamento coletivo recorrente. Naquela época, o RPG Next gastava cerca de R$ 80 por mês para manter o servidor no ar. Quando a comunidade propôs apoiar financeiramente, imaginei um cenário onde entrariam R$ 200: a gente pagaria a hospedagem e sobrariam R$ 120. Não fazia sentido ratear R$ 20 para cada membro da equipe, e eu não queria ficar guardando aquele dinheiro sem um propósito claro. Conversando com a minha esposa, a Vanessa, ela sugeriu: “Se vocês não precisam desse dinheiro excedente, por que não pegam essa sobra e doam para quem precisa através de uma ação social?”.
Achei a ideia excelente. O nome “Guerreiros do Bem”, inclusive, foi sugerido na época pelo Mamute, um colega que quase jogou a campanha de A Mina Perdida de Phandelver com a gente. Assim começamos a repassar a sobra das doações dos padrinhos diretamente para entidades e pessoas necessitadas.
Com o passar dos anos, no entanto, o RPG Next cresceu e a realidade financeira mudou. Os custos operacionais aumentaram significativamente — servidor, programador para o site, manutenção de sistemas e ferramentas cotadas em dólar —, exigindo pelo menos R$ 600 mensais fixos apenas para manter a estrutura básica saudável, sem contar emergências técnicas que já nos custaram milhares de reais de uma só vez. Percebendo que o valor das doações recorrentes perde poder de compra frente à inflação, tomamos uma decisão estratégica difícil: o dinheiro mensal dos padrinhos e madrinhas passou a ser destinado à manutenção e à formação de um fundo de reserva, um caixa financeiro para garantir que a infraestrutura do RPG Next permaneça viva a longo prazo, mesmo se um dia faltarem apoiadores.
Para não extinguir a vertente social, nós reformulamos o modelo: o Guerreiros do Bem passou a funcionar por meio de ações sociais pontuais envolvendo o RPG, em transmissões gamificadas onde o público doa diretamente para causas específicas. A importância desse projeto é enorme para todos nós: até hoje já realizamos 36 edições do Guerreiros do Bem e ultrapassamos a marca de R$ 40.000 doados — um montante consideravelmente maior do que todo o dinheiro que conseguimos guardar no caixa do próprio projeto ao longo desses anos. É um imenso motivo de orgulho.
Para a comunidade continuar participando, a dinâmica é acompanhar as nossas lives beneficentes e engajar nas campanhas ativas. Nós disponibilizamos ferramentas diretas como o LivePix, onde o valor arrecadado vai praticamente integral para a instituição atendida (com apenas 5% de taxa operacional da plataforma, sem as retenções abusivas de super chats tradicionais). Participando das transmissões, interagindo com as metas e fazendo contribuições pontuais nessas sessões, a comunidade nos dá fôlego para manter essa roda girando e tornar o Guerreiros do Bem um projeto autossustentável e duradouro.
11. Quais são os próximos objetivos do RPG Next? Há novos projetos, campanhas ou formatos que o público pode esperar nos próximos anos?
Resposta:
Um dos nossos principais objetivos é tornar o Guerreiros do Bem totalmente autônomo e independente do caixa do RPG Next, consolidando o modelo de partidas beneficentes gamificadas ao vivo. A ideia é que o público assista às transmissões e faça doações diretas e pontuais para causas específicas através de ferramentas como o LivePix — onde a taxa é mínima (5%) e o valor chega quase integral a quem precisa, sem as perdas de taxas abusivas de super chats. Atualmente, por exemplo, estamos com uma campanha ativa para arrecadar fundos para a nova sede da Precavvida, e queremos que essas lives sociais aconteçam com cada vez mais frequência.
No aspecto de produção e campanhas, nós fizemos recentemente um teste muito bem-sucedido com o sistema Dragonbane no Tarrasque na Bota (uma aventura em quatro episódios que também integrou o Guerreiros do Bem). A meta foi estruturar e conduzir a gravação ao vivo de forma tão redonda que o material já saísse praticamente pronto para o podcast, exigindo o mínimo de pós-produção. Isso reduziu o tempo de edição de semanas para uma única tarde. Com esse formato mais ágil validado, o nosso objetivo é conseguir publicar aventuras do Tarrasque na Bota com mais regularidade, contornando o fato de que hoje não temos verba para pagar editores externos dedicados (o que custaria entre R$ 800 e R$ 1.000 por episódio).
Além do Tarrasque na Bota, que é nosso carro chefe, em relação aos programas e formatos, temos outras frentes que gostaríamos de expandir:
- Novos feeds de regras: além do Regras do D&D e do retorno do Regras do GURPS gravado pelo Vinícius, temos a intenção de criar um feed dedicado a regras e sistemas diversos, permitindo ler, analisar e debater manuais de outros RPGs.
- Retomada de projetos: temos muito interesse em dar continuidade ao Contos Narrados, além de tentar aproximar A Forja de uma periodicidade semanal com pautas fixas e convidados frequentes.
No entanto, a viabilização de todos esses planos esbarra no nosso maior desafio: atrair pessoas verdadeiramente interessadas em produzir conteúdo de forma voluntária e colaborativa.
Tudo o que planejamos para os próximos anos depende da entrada de novos colaboradores que tenham uma motivação intrínseca — ou seja, pessoas que queiram gravar, mestrar, editar ou escrever pautas simplesmente pelo prazer genuíno de fazer RPG acontecer. Quem chega buscando fama rápida, milhões de visualizações ou retorno financeiro desiste na segunda tentativa. O RPG Next tem 11 anos de estrada porque é feito por quem ama a mídia; portanto, o nosso futuro continuará sendo construído lado a lado com quem tiver essa mesma paixão e disposição de somar com a gente.
12. Obrigado pela entrevista. Suas palavras e trabalho fortalecem a cena nacional de RPG.
Que conselho você daria para quem quer criar RPG no Brasil hoje?
Resposta:
Eu que agradeço pelo convite e pela oportunidade do bate-papo!
Essa é uma pergunta muito ampla, porque “criar RPG” pode significar desde escrever um sistema autoral do zero até produzir um podcast, fazer vídeos, modelar e imprimir miniaturas 3D, confeccionar cartas para combate ou criar adereços (props) para a mesa.
Independentemente do que você queira criar envolvendo RPG, o conselho central que eu dou vem da minha formação em Design: tenha menos foco na iniciativa e muito mais foco na acabativa.
O que eu mais vejo no meio criativo são pessoas cheias de iniciativa, mas com quase nenhuma acabativa. Na fase de ideação, tudo é maravilhoso e empolgante: o cérebro projeta o produto pronto em segundos. Você imagina o sistema perfeito, a arte incrível ou o canal de sucesso funcionando a pleno vapor. Só que tirar uma ideia da cabeça e transformá-la em um produto tangível e funcional exige método, rotina e processo — e é exatamente isso que o Design ensina.
Para quem quer tirar um projeto de RPG do papel hoje, meus conselhos práticos são:
- Gestão de tempo e disciplina de rotina: Não espere a inspiração mágica chegar. Defina um horário fixo na sua semana — por exemplo, toda segunda-feira à noite, dedicando duas horas focado naquilo. Um projeto grande só se concretiza com pequenos avanços contínuos.
- Fracione o problema macro: Se o seu objetivo é “criar um novo sistema” ou “lançar um podcast”, isso é um bloco gigantesco e paralisante. Quebre esse objetivo em etapas menores e comece pelo que é essencial antes de se preocupar com firulas ou detalhes secundários.
- Use ferramentas a seu favor (incluindo IA para gestão): Se você não sabe por onde começar a estruturar um cronograma ou planejamento, use ferramentas como inteligências artificiais para ajudar na gestão do projeto. Você não precisa usar a IA para criar o conteúdo no seu lugar, mas pode usá-la como um copiloto de organização: diga para ela o que você quer fazer e peça para ela quebrar a sua ideia em etapas sequenciais de trabalho.
- Teste e colha feedbacks reais: Ninguém cria nada exclusivamente para si; mesmo que seja uma aventura pensada para o seu grupo de amigos, você já está compartilhando aquilo com outras pessoas. Coloque o seu protótipo na mesa o quanto antes, observe como os jogadores interagem com o material, escute as críticas com maturidade e faça os ajustes necessários.
Em resumo: estruture o seu processo, quebre a tarefa em partes menores, mantenha a consistência na rotina e garanta que a sua empolgação inicial seja acompanhada pela disciplina de concluir o que você começou. É a acabativa que constrói a cena de verdade.
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