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A casa no fim da rua | Conto de Horror

Escrito por: Herica Freitas

Existe uma casa no fim da rua que ninguém nunca ousou entrar por causa das lendas que a cercavam. Indicado para 16 anos ou mais.

A casa do fim da rua

Martha era uma mulher jovem, teve seu primeiro filho aos 22 anos. Seu parto fora complicado, deixando o jovem Josep por meses no hospital. O pai do menino quase nunca estava presente, sempre viajando a trabalho, não estava perto para ajudar a mulher nos dias de crise. O homem costumava vir em casa uma vez a cada seis meses, o que dificultava a comunicação com sua esposa. Alguns anos se passaram e o casamento acabou. Martha agora vivia sozinha com o filho e sua eterna crise de pânico.

— Bom dia meu príncipe! — disse a mulher de longos cabelos loiros.

— Bom dia mamãe. — respondeu o pequeno garotinho.

— Feliz aniversário! — Martha disse colocando um bolo sobre o colo do filho.

— Já é hoje, mami? — ele perguntou olhando a vela acesa sobre o bolo roxo.

— Sim, hoje você está fazendo seis anos. Resolvi fazer um bolo de beterraba para comemorar.

— Queria que fosse chocolate. — o garoto disse emburrado. — Adoro comer coisas gostosas.

— Mas isso é muito gostoso. Fiz com tanto carinho. — respondeu a mulher. — Já sei, que tal eu ir até a venda e te trazer um caramelo?

— JURA? — deu um salto da cama que quase derrubou o bolo.

— Sim, posso te dar um caramelo de aniversário. — respondeu a mulher afetiva.

— OBA!

Josep era um garoto de seis anos, pele negra, cabelo escuro e olhos verdes que se destacavam em tons de folha seca e caramelo. Sua fisionomia, entretanto, era de um garoto de quatro anos, devido às complicações que tivera nos primeiros meses de vida. Depois de muitas cirurgias e correções, o garoto ficou debilitado, mas ao longo dos anos foi se recuperando com o tratamento e com o cuidado de sua mãe. Ele se sentia forte e saudável, mas mesmo assim Martha não o deixava fazer nada que julgasse perigoso.

Diziam que ela era louca, outros falavam que foi a depressão pós-parto que a fez ficar assim. Alguns vizinhos fofocavam que a separação causou todo esse estresse, mas nada era de fato comprovado. Martha era uma mulher saudável mentalmente, se dizia cuidadosa com seu filho, apenas.

Nesse dia em especial, Martha precisou sair para comprar o presente que o filho tanto queria, o caramelo. A mulher nunca o deixava comer comidas processadas, doces ou frituras, tudo era saudável e nutritivo. Para o incômodo da jovem mãe, a babá de Josep não havia chegado, forçando-a a deixar o garoto sozinho por algum tempo. Depois de pensar bastante sobre o que faria, decidiu dar um voto de confiança ao filho. Martha decidiu ir até o mercado, deixando o garoto avisado sobre os perigos de ficar sozinho.

— Eu já sei, mamãe: não ligar o gás, não ligar o fogão, não ir ao portão, não falar com ninguém… 

A lista de coisas que o garoto não podia fazer, se impressa, com certeza seria maior do que sua própria altura.

— Te vejo em em breve. — A mulher disse para si mesma apreensiva trancando o portão enquanto olhava para seu filho da janela da sala.

Da janela, o jovem Josep dava tchauzinhos para sua mãe, sorrindo.

— O que eu vou fazer agora? — Dizia o garoto a si mesmo enquanto andava pela casa. — O que será que tem na geladeira? De repente a mami comprou alguma coisa para o meu aniversário e não me contou.

Enquanto corria para a cozinha, Josep foi surpreendido ao olhar para a janela que ficava ao lado da porta dos fundos e ver um garotinho branco feito leite, cabelos cacheados loiros e olhos negros.

— Olá, como você entrou aqui? — Josep perguntou olhando fixamente para o garotinho.

A figura sumiu da janela, deixando Josep muito intrigado, que correu até a porta, tentando abri-la, mas sem sucesso, estava trancada.

— Alô? Não vá embora, por favor, eu não conto para a mami. — Ele insistia.

— Você promete? — Uma voz soou de fora da casa.

— Sim, você vai ser meu amigo? — Josep perguntou animado.

— Só se você for meu. — A voz respondeu contente.

— Eu vou, prometo.

— Amigos para sempre? — A voz perguntou.

— SIM! — Josep respondeu mais contente ainda.

— Você não pode sair para brincar? 

— A porta está trancada, eu não consigo abrir. — Josep respondeu tristonho.

— Ora, isso é fácil. — A fechadura virou-se sozinha.

— Como você fez isso? Você é mágico? — Josep perguntou, encantado.

— Vai ser o nosso segredo. — A voz disse ainda de fora da casa — Qual seu nome?

— Josep, e o seu?

— Não me lembro. — A voz respondeu.

— Eu vou te chamar de Mágico.

— Eu gosto de Mágico. Você quer vir à minha casa, Josep? — Ele disse enquanto aparecia à porta.

— Minha mãe vai brigar se eu sair de casa. — Respondeu triste.

— Ela não vai saber. Vem, vamos correr até a minha casa — Mágico respondeu.

— E onde você mora?

— Na casa do fim da rua.

Josep e Mágico saíram correndo pelo quintal, deixando para trás a porta dos fundos, aberta. Eles pularam as cercas e correram de quintal em quintal até chegarem em um totalmente tomado por grama alta, ervas daninhas e muitos escombros.

— Chegamos! — Mágico disse abrindo os braços.

— É… 

Mágico olhou apreensivo.

— É perfeito! — Josep disse animado. — E onde estão seus pais?

— Eles não estão aqui, podemos brincar para sempre se quisermos. — ele respondeu.

— Vamos começar com esconde esconde, você sabe brincar disso, Mágico? — Josep perguntou.

— Eu sou o melhor nesse jogo.

— Então eu conto e você se esconde, eu vou contar naquela árvore ali — apontou para uma grande árvore velha. — Legal, tem um balanço, mas por que tão alto?

Josep se aproximou da árvore que era muito alta, quase maior do que a casa. Havia uma corda amarrada a um dos galhos, com o formato de um laço na ponta, que era alto demais para ser um balanço.

— Minha mãe quem fez, ela nem sabe fazer balanços. Meu pai achou ela dormindo aí outro dia— Mágico respondeu, inocente.

— Quando eu encontrar ela, vou ensinar como se faz um balanço de verdade. — Josep respondeu — Agora se esconde, vai. Um, dois, três… nove, dez! Pronto ou não, aí vou eu!

Josep olhou ao redor do quintal, o mato alto dificultava que ele enxergasse além da árvore. Em suas costas, tinha a grande casa, que parecia velha demais. Correu em volta da casa, observando as janelas trancadas com madeiras e pregos, as portas estavam trancadas também, ainda assim tentou abri-las na esperança de achar o garoto. Correu de volta para o quintal, mas não viu sinal algum de onde Mágico poderia ter ido. Correu mais rápido para além da árvore, adentrando a grama alta que cobria com facilidade todo seu corpo, acabou se cortando em uma das folhas, mas continuou correndo até o limite.

Assim que conseguiu sair do meio do mato, Josep foi surpreendido por um pequeno parquinho. Tinha um escorregador enferrujado, um balanço, uma caixa de areia cheia de pequenas árvores que cresceram ali, um gira-gira e uma casinha de madeira com a estabilidade duvidosa.

— Mágico? Mágico, você está aí? Mágico?

— Bú! — Mágico disse, segurando os ombros de Josep.

— AAAAAAAAA! Não faça isso! — disse com o coração disparado — Assim você me mata de susto.

— Você achou meu parquinho.

— É seu? — Josep perguntou admirado.

— Sim, meu pai construiu para mim depois que a mamãe foi embora. Ele disse que era para eu não ficar triste, que ela volta logo. Ela ainda não voltou, mas eu sei que vai. Papai foi trabalhar e eu fiquei aqui brincando. Daí eu dormi na casinha, e quando acordei fui procurar alguém para brincar comigo. Ai eu achei você, sozinho e triste, assim como eu.

— É que hoje é o meu aniversário. — Josep se sentou no balanço fazendo com que o barulho estridente de metal enferrujado ecoasse pelo quintal. — Minha mãe sempre está querendo me proteger de tudo. Ela não me deixa sair, comer chocolate ou brincar com outras crianças ou na rua. Ela me falou que é porque eu fui um bebê muito doente, quase morri. E agora ela cuida de mim para que nada de ruim aconteça. Sua mãe é assim, Mágico?

— A mamãe é triste. Papai me disse que ela ficou assim depois que eu nasci. Mas ela vinha no meu quarto todos os dias para me dar um beijo de boa noite. Eu sinto saudade dela — Mágico disse, com os olhos marejados. — Queria que a mamãe estivesse aqui.

— Mágico, por que seus pés não estão tocando no chão? Você está flutuando! — Josep apontou para os pés do garoto loiro.

— Você não disse que eu sou mágico? Deve ser por isso!

— Você falou que dormiu na casinha, não foi? — Josep disse.

— Sim. Eu estava brincando e o papai me trouxe um copo de leite com biscoitos. Eu comi e dormi logo depois.

— Será que sobraram alguns biscoitos? Estou com fome. — Josep disse.

— Vamos lá ver.

Ambos os garotos andaram até a escada da casinha de madeira. Subiram, degrau por degrau, até a portinha que estava entreaberta. A luz iluminava vagamente seu interior, e Josep foi a frente empurrando a porta até que ela se encontrasse com a parede à direita. Dentro da casinha de madeira havia um copo de vidro velho, cheio de poeira e lodo. Além de um prato com muita sujeira e nenhum biscoito. Deitado no chão, sobre um travesseiro velho e surrado, ao lado de alguns exemplares de quadrinhos de super-heróis, estava um pequeno esqueleto, do tamanho de uma criança. 

— Mágico! — Josep olhou para trás à procura de seu amigo. — Mágico, cadê você? Mágico! 

Uma tristeza imensa invadiu o coração de Josep, seus olhos marejaram involuntariamente. Suas pernas trêmulas e seu coração acelerado foram o suficiente para que ele caísse de joelhos em frente ao esqueleto. Ele sentiu frio. Uma profunda angústia tomava o seu ser, enquanto as lágrimas corriam sobre suas bochechas coradas e cortadas pelo mato alto. 

— Josep! Josep! — uma voz apreensiva vinha de trás do mato.

— Ma…mãe! — Suas palavras saíram quase como um sussurro em meio às lágrimas.

— Senhora, seu filho não está aqui, talvez ele esteja brincando com algum amigo. — Uma voz masculina dizia.

— MAMÃE, AQUI!

— É ele, é ele! — a mulher correu pelo mato alto, indo ao encontro da voz do filho.

— Mamãe. — o garoto disse enquanto limpava os olhos — O Mágico sumiu, eu estava brincando com ele e ele desapareceu, você me ajuda a encontrar ele?

— Mágico? É algum animal? — o homem fardado perguntou.

— Não, ele é meu amigo. Um garoto loiro, branco e de olhos pretos.

— Mas aqui só tem você, garotinho — o guarda disse olhando para dentro da casinha. — O que?

— O que foi, policial? — a mulher disse enquanto conferia o corpo do filho.

— Atenção equipe, temos um corpo na casa do fim da rua Lourdes, casa abandonada, sem número. Criança, aparentemente 6 anos. Estou invadindo a propriedade — disse no rádio. — Venham comigo, não posso deixá-los sozinhos.

— Eu preciso ir para casa, senhor — disse a mulher.

— A senhora e seu filho não vão a lugar algum, tenho aqui a cena de um possível crime que seu filho descobriu — ele diz olhando para a árvore.

— O Mágico me disse que a mamãe dele fez esse balanço aí. Ela não deve ter feito muitos balanços na vida. — Josep disse.

O guarda olhou incrédulo pela inocência de Josep. Apenas sorriu e respondeu.

— Algum dia vocês ensinam a ela como fazer um balanço correto. Para trás — ele disse levando o pé à porta.

Um chute, dois chutes e três chutes. Foi o suficiente para que a porta cedesse e revelasse o interior escuro da casa. O guarda olhou para ambos e disse “atrás de mim!”, com sua lanterna começou a iluminar o espaço escuro à sua frente. Era uma antiga sala, com lareira, poltronas e um tapete velho e embolorado no chão. Em frente a lareira havia fotos de uma família. Uma mulher loira grávida com um homem alto e sorridente, a mesma mulher com uma criança no colo, o homem sorridente com a criança na banheira e uma foto de um garoto branco, de cabelos cacheados e loiros e de olhos negros. 

— É ele! — Josep correu até a foto. — É ele moço, é o Mágico. Ele quem estava brincando comigo.

O guarda engoliu em seco, olhando para uma ossada ao chão, perto da poltrona. Olhou para Josep mostrando a foto do garoto, mas sabia que ele era a ossada na casinha de madeira. Junto ao pai ele achou uma arma e uma carta. Abriu-a e com a lanterna começou a correr a letra borrada e tremida:

Se alguém estiver lendo essa carta, eu provavelmente estou morto. É uma confissão, para que ninguém seja culpado de meus atos. Não resisti quando Romênia partiu, não tive coragem sequer de tirar a corda da árvore. A enterrei no quintal embaixo do grande carvalho. Disse ao Max que sua mãe havia viajado e voltaria em breve, não tive coragem de contar ao garoto. Os dias foram passando e as coisas ficaram mais difíceis. Decidi ir viver no além com o amor da minha vida, mas não poderia deixar a criança sozinha e desamparada. Dopei o garoto com uma dose alta de calmantes, o que certamente o levou a uma overdose e a uma morte tranquila. Peço perdão a todos pelos erros. Alfred.”

 


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