ContosVelho Oeste

Os Apócrifos de Ezequiel

Escrito por Nilson Doria

Os Apócrifos de Ezequiel

Este conto faz parte do universo de BadLands, um cenário de faroeste sobrenatural do RPG Next. Aqui acompanhamos Ezequiel, gêmeo de Lone Phil, antes dos acontecimentos da Temporada 1. Recomendamos que este conto e a Parte 1 do conto de Lone Phil sejam lidos em sequência, em qualquer ordem.

BadLands é um cenário de faroeste que mescla elementos históricos e sobrenaturais no qual grupos de aventureiros vivem suas histórias. Nesse conto, que antecede a primeira temporada de BadLands, a história de Ezequiel Wenschel, desde sua infância, sua vida como trapaceiro, vilão e algo pior. A meio do caminho ele apresenta sua filosofia de vida “pouco usual”.

Conteúdo adulto: linguagem forte, violência e passagem de teor sexual.

1. Um merda!

— Ezequiel é um merda! — pronto já está tudo dito. Não diz nada, resume tudo. Poderia terminar por aqui. Poderia, não vou. Por quê?! Primeiro porque sou um merda, reafirmo, em segundo lugar porque sou um filho da puta. Bom, disso não tenho certeza, não conheci minha mãe, mas isso faz realmente diferença? Para mim não, assim como não faz a menor diferença a opinião de quem lê este bosteio. Se não termino por aqui mesmo é porque não sou um filho da puta qualquer, sou um filho da puta tagarela.

(Nota de esclarecimento, tagarela sou eu, como disse não conheci minha mãe, logo não sei se ela era uma puta, muito menos uma puta tagarela)

(Nota de esclarecimento acerca da nota de esclarecimento: não, eu não quis ser engraçado, eu sou apenas tagarela, o que me vier eu escrevo. Engraçado ou não, verdadeiro ou não. Mas… há algo mais engraçado que ver alguém engasgando com uma boa verdade enfiada goela abaixo?)

— Ai tadinho! Ele não teve mãe… por isso que fala desse jeito! Quanto não deve ter sofrido! Tenham dó do pobre enjeitado. E olhe só, além de tudo é aleijado. Tenham dó dele!

Façam-me o favor! Se sua pena viesse acompanhada de alguma atitude solidária eu até poderia me sentir ofendido. Mas nem isso! Logo… guardem-na para si mesmos. Ou não, porque no fundo isso me diverte. Doutos e abastados apiedados, vejam a nota anterior! Não me resta nada além de escancarar minha goela para engolir suas palavras e depois vomitá-las nas suas caras em uma sonora gargalhada!

De todo modo, voltemos ao eixo, sou um merda. Mas que tipo de merda? Das que boiam, das que afundam, das duras como pedra, das líquidas que escorrem pelo furico se o sujeito dá um espirro? Há muitas espécies de merda. Já pararam para pensar nisso, ó doutos e abastados?

Bom, é quase certo que não. Pouco se me dá. Não escrevo para vocês. Na verdade, nem para mim. Escrevo porque se não o fizer me torno são. E não há nada nesse mundo maldito que me irrite mais do que a perspectiva de me tornar mens sana. Quem escreve não sou eu, é minha loucura.

Isso responde à pergunta deixada em aberto: sou um merda do tipo louco, daqueles que escorrem pelas paredes dos banheiros de estalagens e grudam nos sapatos dos passantes.

2. Minha loucura…

(Mais uma nota, e olhem que nota inoportuna, já inicio novo título com uma nota! Hahaha! Mas vamos à nota, reparem bem, minha loucura é bem marota, é ela quem escreve, quer falar sobre si e quer fingir que sou eu, e não ela, quem redige esse texto, mas nas minhas notas estou a salvo. Sou eu mesmo, não ela)

É verdade, sou louco, mas isso não quer dizer que eu e minha loucura sejamos a mesma pessoa. Eu quero ser eu e ela tenta me afastar de mim. Eu a entendo, acredito até que, diferente de mim, ela tenha alguma nobreza. Uma pessoa nobre tentaria me dissuadir de insistir em ser eu mesmo. Tivesse eu uma fração de sua nobreza a teria mandado embora há tempos! Não sou boa companhia, melhor seria que ela seguisse sem mim.

Quem se mistura aos porcos, farelo come. Ela sabe disso. Ainda assim, insiste em ficar. Eu gosto de companhia, nem que seja para comer farelo. Odeio estar sozinho! Se ela me acompanha, eu é que não vou deixá-la ir. Chantageio seus sentimentos, amarro-a a meus pés, costuro nossas peles, faço-a crer que sem mim ela não pode viver (como se a loucura não pudesse viver sem o louco!).

Ou seja, sou louco porque aceito e anseio sua companhia, não porque sejamos uma coisa só. Fôssemos uma coisa só, já a teria mandado embora, eu é que não quero me misturar aos porcos! (Sim! Sei que isso não faz o menor sentido, abandonem buscar um nestas linhas).

Durante muito tempo acreditei que fôssemos só eu e ela nesse mundo, nós contra eles, eles contra nós, eu contra ela e ela por mim. Mas recentemente descobri que havia mais. Havia um irmão. Bom, ele continua havendo, eu não mais. Não coloquemos o carro à frente dos bois.

3. Família, quem diria?!

É, quem diria… até um merda tem família! Como disse, não conheci minha mãe, e descobri que ela não me conheceu também. Morreu no meu parto, mas teve consideração o suficiente para permanecer viva durante o parto do meu gêmeo. Às vezes gosto de pensar que não fui parido, mas excretado, pela senhora minha mãe. Isso explicaria muitas coisas: primeira, a razão de ser um merda; segunda, que minha mãe tenha morrido ao me dar à luz; terceira, não lhes devo satisfação! Caraminholem o que quiserem como terceira coisa.

(Mais uma nota: também disse, além de um merda, também sou aleijado — e uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, assim como poderia ser um louco e um órfão e um caçula sem ser um merda, o mesmo vale aqui. Se cito o fato nesse momento, é porque ele tem a ver com a circunstância da minha orfandade. Fui retirado a ferros, e desde aí, ó doutos e abastados, que minha perna esquerda esfacelou-se)

Não conheci minha mãe, mas conheci meu pai e meu irmão. Dois desastres da natureza. Dizer que os conheci pode ser algo forte de se dizer. Troquei meia dúzia de palavras com cada um deles. Às vezes um pingo vale uma letra, uma imagem mil palavras, o que faz das palavras uma medida estranha quando se trata de equivalências. De todo modo, mais do que palavras, troquei tiros com eles e outras formas de violência também — temos aí uma medida mais fidedigna.

Meu pai era um sujeitinho deplorável, um ex-padre que engravidou minha mãe. Não fui criado por ele. E, apesar de ele me visitar com certa frequência, nunca se me apresentou como meu genitor. Isso tive de descobrir sozinho. Fui criado por um casal miserável material e espiritualmente, os Wenschel. Ele um trambiqueiro compulsivo, ela uma coitada que sofria e se submetia a seus caprichos — ela poderia ir bem mais longe que isso, mas a quem ela recorreria naquela pocilga de cidade em que vivíamos?

Bom, voltando ao caso, esse casal lamentável me criou. Meu pai postiço não gostava de mim, mas cedo descobriu que eu podia ser útil nos seus golpes. Crianças não eram levadas muito a sério e isso era uma vantagem: podia bisbilhotar pessoas sem ser percebido, espiar mãos de pôquer sem que notassem, afanar uma coisa aqui, outra ali sem que me apontassem o dedo. Além destes ofícios práticos, ele também me ensinou outras coisas, duas muito importantes: é preciso esperar o momento certo para agir; não se pode confiar em ninguém nesse mundo.

Já da minha mãe adotiva, eu aprendi outras coisas, como cozinhar e dissimular a raiva — ela era um prodígio nessas duas coisas. Ofícios também muito práticos. Também ajudou a modelar minha sabedoria de outros modos, por exemplo, me ensinou que a subserviência nunca é sincera, e que a raiva contida adoece quem a sente, ou mata quem a provoca, o que vier primeiro — ela não teve a sorte de matar aquele pilantra do marido dela, uma pena… nós dois teríamos ganhado muito com isso.

Os dois juntos ainda me ensinaram uma outra coisa: sinceridade não é sinônimo de franqueza. Nunca mentiram sobre eu não ser filho deles, mas também nunca me disseram que sabiam da minha história, quem eram meus pais, e que eu tinha um irmão. Eu não gostava deles, mas da maneira torta que um merda consegue ser, sou grato pelas suas valiosas lições, por exemplo, é extremamente útil poder ser sincero sem ser franco.

Quando o sacripanta daquele ex-padre desgrenhado vinha nos visitar, eu era proibido de ficar na casa. Na verdade, não era bem isso, meu padrasto era ardiloso demais e sabia que isso só atiçaria a curiosidade de uma criança, então ele me dava alguma incumbência, buscar pão, velas, colher os feijões, levar um recado… essas coisas miúdas que as crianças ao fazê-las sentem-se dignificadas, quase adultos. E isso me distraía o suficiente.

Eu tinha um certo medo daquele homem, meu pai, ele parecia astuto e não me ignorava como a maioria das pessoas. Sentir o peso de um olhar adulto, que não fosse recheado de desdém, pena ou reprovação era algo tão alienígena para mim, que apenas a mais basal das emoções conseguia me alcançar. Bom, todos que me podem ler ou já foram, ou ainda são, crianças, logo quem quer que seja que leia essa mixórdia sabe que nas crianças o medo é vizinho do fascínio — ou seja, na medida em que me impunha medo, o Velho também me fascinava.

(Mais uma nota: que patifaria tentar despejar nas crianças essa mesquinharia “medo vizinho do fascínio”… que nojo de expressão! Cuspi uma escarrada bem puxada dos meus pulmões depois que vi isso escrito. Isso não é coisa de criança, isso é coisa de gente — já já voltarei a estas coisas, como toda a gente é igual.)

Então, a despeito dos ardis do meu padrasto, um belo dia que recebemos a visita do meu pai, resolvi ficar ali, escondido, sob a janela pelo lado de fora da casa, para escutar a prosa entre os dois. Bisbilhotar era um dos meus ofícios, lembram? De tanto fazê-lo eu aprendi que além de ser útil em golpes, chantagens e outras canalhices, era ótimo remédio contra o medo — normalmente quando você conhece o segredo de alguém, vai se embora o respeito, e com ele, pelos meus cálculos, em média algo entre um terço e metade do medo, às vezes por completo.

Sem delonga e chorumela, nessa conversa descobri que o Velho era meu pai, que minha mãe havia perecido no parto, que tinha um irmão gêmeo e que o vigarista desse excomungado havia me dado para essa família criar porque ele não tinha condições de criar duas crianças. Vinha sempre porque sentia culpa, e sua “contrição” era certificar-se que eu estava bem, sempre deixava um dinheiro com os Wenschel para aliviar a culpa por seus pecados.

— Mas que inverossímil tocarem em todos esses assuntos justo no dia que você estava sorrateiramente fofocando!

— Ó doutos e abastados, não foi coincidência alguma… sabendo do peso da culpa do meu pai, o Sr. Wenschel sempre tentava arrancar um “a mais” dele (no seu lugar eu faria a mesmíssima coisa, eu o julgo por muitas outras coisas, mas não por isso). E como sempre acontece quando alguém quer se aproveitar da culpa alheia, nada melhor que lhe atirar nas fuças toda a bosta que espalhou pelo mundo. Pelo que entendi era frequente essa lavação de roupa suja.

Claro que aquilo me abalou no momento, muitas coisas se passaram pela minha cabeça: respeito e medo foram embora, de braços dados cantarolando; a raiva subiu à minha cabeça, desde então eu já queria matar a porra daquele velho! Também fiquei com pena da minha mãe e me senti culpado pela sua morte (eu ainda sentia culpa naquela época). Mas de tudo isso o que mais me marcou foi: eu tenho um irmão, um gêmeo! Fiquei curioso como nunca, e esperançoso, e apreensivo: onde ele vivia, o que ele fazia, quem criava ele, ele também puxava da perna como eu, seria a esquerda igual a mim, ou será que a direita? Resumindo: eu só queria conhecê-lo!

Consegui me conter, para meu próprio assombro. Provavelmente foi nesse dia que minha loucura me visitou pela primeira vez, ainda sem saber se era para ficar. Contive-me, não fui descoberto, e pus duas coisas na cabeça — duas coisas que nunca iria tirar dela: eu iria matar o Velho, e descobrir onde estava meu irmão. Em outras palavras, talvez pudesse fazer tudo de uma vez, pois, ao que tudo indicava, eles moravam juntos.

Uma típica história de família, não? Hahahaha!

4. Nós, os canalhas…

Eu acho muito bonita nossa Carta Magna, ó doutos e abastados, toda essa história de igualdade entre os homens, et cetera. Acho realmente um primor.

(Realmente adoro notas! Vejam, também sou douto! “Carta Magna”, expressões em latim!)

Nos dias de hoje, acho que não há pessoa alguma que discorde disso (ao menos não à luz do dia), alguém que me lê discorda?

Isso é realmente muito bonito, libertador, eu diria. Vocês todos iguais entre si. E iguais a mim, e eu igual a vocês! Isso é alentador para mim, pelo menos. Não me acho melhor (e muito menos pior) que ninguém. Quem em sã consciência cívica, na plenitude de suas faculdades mentais, levantaria a voz para dizer: “Senhoras e senhores, eu sou superior a vocês!”?, e quem, a não ser um hipócrita, teria a pachorra de proferir: “Senhoras e senhores, vós sois em tudo superiores a mim, sou um merda!”? (vejam bem, já assumi que sou um merda, mas nunca inferioridade).

Mais que bonita, acho que ela, nossa Carta Magna, contempla muito bem como nós, os canalhas, vemos o mundo. Todos são iguais a nossos olhos. Ninguém vale nada! Isso, é claro, nos inclui! Há quem leve tão a sério a igualdade entre os seres humanos quanto nós?!

Vejam bem, posso estar sendo presunçoso, mas acho que vamos um passo além dos nossos fundadores, quando eles falam da tal da igualdade entre os homens, eles parecem estar falando de uma coisa muito limitada, bem diferente de nós.

— Como assim?!

— Ora, como assim como assim? Primeiro quando estão falando de homens, não me parece que falem de mulheres, por exemplo. Também não parecem estar falando de africanos, indígenas, asiáticos, estrangeiros de toda a sorte, analfabetos, despossuídos e segue a lista. Mas nós, os canalhas, não fazemos esta distinção. Todos valem o mesmo, o mesmo: nada. E que fique claro novamente, isso vale para nós também. Você, que me lê, por acaso diferencia entre essas pessoas, algumas delas valem mais ou menos para você?

Todos, indistintamente, são possíveis vítimas de nossa astúcia e de nossos ardis. Do homem mais abastado ao mais desafortunado, da mulher mais inteligente à mais néscia, são apenas carniça à espera da rapina dos abutres, não importam a cor da pele, o credo, o que-quer-que-seja… Abutres somos nós, os canalhas, e carniça somos igualmente, para cada canalha há um canalha e meio. Talvez as pessoas valham alguma coisa, posso me retratar. Não é que não valham nada, elas (quer dizer, nós todos!) valem, são carniça! Alimento, portanto.

Ainda temos um outro dom, que fortalece essa minha visão, o de sermos os arautos da igualdade. Eu o chamo dom da “equalização”. É muito mais fácil converter um não-canalha à canalhice, que o inverso. Não é o que dizem, “Deus criou os homens, o Coronel Colt os fez iguais”? O homem vendeu armas ao Norte e ao Sul! Esse sim, tratava todos como iguais! Eu, particularmente, não levo o adágio de maneira tão séria, diria: “Deus criou as pessoas, o Coronel deu-lhes mais uma forma de serem covardes e canalhas”.

Acompanhem o raciocínio, ao acanalharmos os (aparentemente) não-canalhas não só os tornamos mais semelhantes entre si, e a nós, por consequência, como também propagamos o senso de igualdade irrestrita que só a canalhice pode conferir. Isto é um dom, reitero! Pode parecer que aqui eu esteja caindo em contradição, retrato-me: se todos somos iguais, não é possível, de fato, acanalhar alguém, isso seria admitir uma diferença de princípio, ou a princípio, entre nós. O que é possível é tornar as pessoas mais conscientes de sua própria canalhice, em outras palavras, é possível fazê-las encararem os espelhos.

Posso apoiar meus argumentos não só em exemplos de vultos históricos. Eu mesmo tenho pelo menos uma história sobre isso, sobre como, sob as circunstâncias corretas, mesmo a mais “santa” das pessoas está sempre predisposta a acanalhar-se, e, portanto, a ser capaz de tratar os semelhantes de forma verdadeiramente igualitária. Isso aconteceu já tem um tempo, naquela época vagabundeava fora das cidades.

Estava esperando a poeira baixar depois de certo ilícito meu, que não vem ao caso. Aproveitava-me da minha perna coxa e das vestes maltrapilhas (ah, sim, e do odor nauseabundo que exalava) para despertar pena nos camponeses e descolar um abrigo, um banho, uma cama e cometer pequenos furtos para me manter. Sim, sou canalha, mas não sou burro. Um furto grande é facilmente percebido, já um pequeno… até que o descobrissem, eu já estaria bem longe, e talvez nem desconfiassem do pobre coitado que eu aparentava ser.

Sigamos para o causo.

5. Equalização, lição prática

Então, em meio a essas andanças sem paranças (sim, eu escrevo paranças, escrevo o que quiser, e já nem sinalizo minhas notas, vocês que se virem! — mas continuo gostando delas), passei por uma fazenda que era um mimo. Quer dizer, fazenda é exagero, era uma propriedade familiar, mas com uma vasta área plantada e muito bem cuidada. Eu evitava grandes propriedades, muitos jagunços.

Como eu disse, a propriedade era um mimo. Agora, à época de colheita do trigo a paisagem era uma beleza, dava para ver que tudo aquilo fora plantado com muito esmero e planejamento. Se eu não estivesse com o estômago colando nas costas, juro, eu passaria o final de tarde inteiro ali só admirando aqueles campos dourados que, de vez em quando, chispavam como braseiro quando o vento agitava as espigas, aquele céu limpo e de azul profundo, só sentindo aquele cheirinho gostoso de palha quente…

Paisagem não enche bucho. Não podia me dar ao luxo de ser contemplativo. Estava atento às pessoas. E havia alguma coisa estranha nelas. Muitos trabalhadores estavam espalhados pela propriedade, como era de se esperar, mas poucos estavam trabalhando. Aquele trigo não iria se colher sozinho… O que estava acontecendo? Onde estava o olhar do dono que não engordando a galinha? Tanto trabalho para semear e cuidar daquela beleza para agora deixá-la ao deus-dará?

Fiquei curioso, fui investigar o que se passava. No meu andar coxo fui me aproximando da sede bem vagarosamente. Poderia ir mais rápido, claro! Mas assim seria difícil ouvir o que os camponeses conversavam, e eu não pareceria tão coitado quanto gostaria. Não queria bater à porta da casa grande sem ter ideia do que se passava, nem parecer apenas mais um falso coxo à espera de piedade (sim as estradas estavam cheias deles!).

Moral da história: parecia que o dono da propriedade estava melancólico depois que um vaqueiro havia partido. O velho tinha aspirações casamenteiras entre o tal sujeito e sua filha. Já tratava o vaqueiro como filho, dava-lhe acesso livre à casa e responsabilidades de capataz. Considerando o tamanho da propriedade e a energia despendida no seu cuidado, pensei cá com meus botões: ou o sujeito era doido de largar isso, ou ele já havia conseguido o que queria com a herdeira, daí melhor seria partir antes que descobrissem sua velhacaria. Bom, ele ainda podia ser simplesmente um sujeito honesto… mas eu tendo a não levar essas hipóteses a sério.

Ruminando estes pensamentos cheguei à sede e toquei o sino que havia na cerca da casa grande. Uma moça veio me receber, era a filha do velho. Dani era o nome dela. A moça era um encanto, perguntou o que eu queria. Eu disse que procurava pouso e abrigo, não poderia oferecer muito em troca, na qualidade de manco, mas estava disposto a pagar com o trabalho que minhas forças permitissem (obviamente uma mentira, qualquer um menos inocente que ela teria percebido). Na sequência ela me ofereceu um prato de comida, e que comida boa! (dá para perceber que uma pessoa é boa pela comida que ela cozinha — sim, há pessoas boas que cozinham mal, mas não há pessoa má que cozinhe bem e ofereça essa comida a um estranho maltrapilho).

Proseei um tanto com Dani. Queria arrancar dela um pouco dessa história sobre o vaqueiro que partira. Não fiz isso diretamente, não sou idiota. Comentei que estava achando estranho toda aquela lassidão em época de colheita, que eles estavam precisando de um capataz! E daí, ó doutos e abastados, ela entregou tudo… mais que eu esperava na verdade.

O tal sujeito realmente resolveu partir, meio que de uma hora para outra, depois que a cadela dele morreu! Ele não havia tocado em um fio de cabelo daquela moça bonita, o que colaborou muito para que ela se enamorasse dele e mais ainda para que ele caísse nas graças do pai. Na minha cabeça estava claro: um doido. Também estava claro, ali era terreno fértil para mim, poderia arrancar muita coisa de uma pessoa tão ingênua e tão acostumada à ingenuidade.

A prosa corria bem, já estava quase conseguindo albergue para os próximos dias em uma casa abandonada por um dos colonos (até que eu me recuperasse! — hahaha). Mas a sorte durou pouco. O velho sentiu falta da filha e apareceu na janela do quarto no segundo andar. Não sei quanto tempo ele ficou ali espiando, mas foi tempo suficiente para perceber que eu estava enrolando a filha dele. Bastou um olhar para mim e ele já sabia: “Esse aí não presta!”. Como não presto mesmo, não pude nem ficar ofendido, mas fiquei furioso, meu disfarce caindo para um caipira perdido em um fim de mundo…

Mesmo tomado pela melancolia, ele teve forças para gritar de lá que eu terminasse minha refeição e seguisse meu caminho, não havia espaço ali para gente da minha laia. Eu precisei de todas as minhas forças para recolher minha ira e evitar revidar. Já a garota corou e sentiu-se envergonhada pelo comportamento do pai. Em um sussurro rápido, enquanto recolhia o prato de minhas mãos, ela disse que eu a esperasse em uma árvore atrás do celeiro grande. Ela daria um jeito para que, ao menos por essa noite, eu pudesse recuperar minhas forças antes de seguir jornada.

Fiz como me foi solicitado, aguardei algumas horas à sombra daquela árvore. Passei o tempo inteiro pensando que precisava me vingar daquele velho. O sol estava quase se pondo quando ela chegou com uma trouxa de pano com restos de um bolo. Ela me ofereceu passar a noite no celeiro para descansar, havia um pequeno sótão no qual poderia me abrigar. A única condição dela: eu deveria sair antes da aurora, o pai não poderia saber.

Meu plano já estava traçado. Ele me tirou o teto, eu lhe tiraria o chão. Como bom canalha agradeci de maneira comovida. Disse que ambos tínhamos muita sorte, eu de tê-la encontrado, e ela de ter um pai tão zeloso. Ela ficou sem entender direito, mas concordou com um meneio de cabeça. Continuei dizendo que o pai dela estava certo em me pôr para correr como fizera com o rapaz a quem ela se afeiçoara. O velho era homem vivido e homens reconhecem outros homens. Ele sabe quando um homem olha para ela de um jeito reprovável.

Ela deu passo atrás, ficou lívida ante a potencial ameaça que eu demonstrava ser (anotem isso: fazer-se parecer ameaça é uma forma de expor-se, e a exposição sempre soa sincera, as pessoas acreditam no que você diz depois disso). Depois ela corou e protestou, disse que eu não sabia do que eu estava falando: o pai não era assim, Lou não era assim!… O sujeito agora tinha um nome!

Eu disse a ela que não se enganasse. Que motivo “Lou” teria para deixar a fazenda? Luto por uma cadela?! Dani valeria para ele menos que uma cadela velha e doente?! Não era possível! Lou até poderia ser um bom homem, ainda assim, era um homem, e os homens não são muito diferentes uns dos outros. Todos querem uma boa condição de vida e o afago de uma bela mulher. Se ele tinha tudo isso ali, ele só partiria se algo ou alguém o expulsasse, e ali só havia uma pessoa que o poderia expulsar: seu pai!

Ela retrucou, quase foi embora. Eu segurei a barra do seu vestido. Pedi desculpas, e continuei. Eles são homens bons, eu não duvidava disso, mas eles só podem ser tão bons quanto homens podem ser. A prova disso era que, mesmo nutrindo maus sentimentos um pelo outro, nenhum dos dois queria magoá-la. Eles encenaram uma farsa para não a ofender. Concluí reafirmando a sorte que ela tinha em ter pessoas tão boas por perto, e a sorte maior que ela estava vivenciando agora mesmo, que o pai me expulsara da propriedade, eu que ousava tocar na barra de seu vestido!

Não sei por que, mas a cada vez que eu usava a palavra “sorte” isso causava uma contorção estranha no seu rosto. Ela saiu correndo sem conseguir segurar o choro, tropeçou a caminho da casa grande.

Como o convite a ocupar o sótão não foi retirado, senti-me à vontade para passar a noite lá de muito bom grado, satisfeito em saber que havia semeado tempestade na calmaria daquela alma. Não levo nenhum talento para agricultor, mas isso não é necessário para saber como é fácil plantar erva daninha em solo fértil.

O celeiro não era muito distante da casa grande, minutos depois pude ouvir uma discussão vindo de lá. A voz grave do velho na defensiva, suplicante e chorosa, e a voz, outrora doce, de Dani estava agora desfigurada em berros desiludidos, desconsolados, confrontadores. E eu, que não presto, senti uma pontada de triunfo. Triunfo pequeno, mesquinho, mas triunfo. Não sabia o que os aguardava, mas já estava satisfeito.

Dormi bem aquela noite, dormi pesado, o sono dos vingados (nunca conheci, nem invejei, o dos justos). Cheguei até a me preocupar se conseguiria acordar antes da aurora. Preocupação vã. Um pouco antes do sol despontar ouvi um tiro vindo da casa grande, e logo depois um grito desesperado, um grito de lamento, era Dani chorando. O mais rápido que pude juntei minhas coisas e saí, sem ter certeza do que havia acontecido na casa grande, mas certo de que fora nada bom, e que eu havia causado tudo aquilo. Dani havia sido equalizada, já não havia restado nada de sagrado nesse mundo para ela.

6. (Nota)

Isso me ocorreu tempos depois. Eu também me equalizei no episódio anterior. Meu argumento continha falhas, eu jamais consegui provar que o velho havia expulsado Lou da propriedade. Não era um plano perfeito. Cheguei a me sentir mal por isso. Enquanto digeria a minha falha pensei: “mas funcionou, a perfeição não era necessária”. Lição de humildade: não sou, nem preciso ser melhor que alguém. Se meu argumento falho foi o bastante é porque o entendimento, também falho, da moça não pedia mais que isso.

E quem não é falho? Mesmo o pai dela, com aquele olhar que me atravessou (o mesmo olhar do meu “Velho” que me enxergava quando ninguém mais o fazia), não era um fraco que sucumbiu a um ardil tão prosaico como o meu?

Ser um canalha é isso, descobrir que a igualdade das pessoas é real, não letra-morta. Se o ótimo é inimigo do bom, o pior é inimigo do mau. Por quê? Porque, paradoxalmente, um fazer mau é pior que fazer o pior. Fazer o mau ou o pior? Se produzir o mesmo efeito, quem faz o mau tem menos trabalho e mais chance de sucesso. O mau é mais eficiente e eficaz. Não dá para confiar que sempre entregaremos o nosso pior. Essa é uma boa lição, ou má, entendam como quiserem.

7. As uvas

Nessa época eu estava em uma situação confortável, já não era mais procurado, ou se era, quem se preocuparia em me procurar, dada a profusão de recompensas tão mais vistosas que aquelas que um dia penderam sobre mim? Depois de uma série de golpes que renderam um bom dinheiro eu mudei de nome, Franz Wenschel, e aparência, vestia-me elegantemente, cabelos escovados, e até mandei confeccionar uma bengala, com um castão imitando a lendária bengala de Franz Liszt, com os personagens principais do Fausto esculpidos em prata: Fausto, Mefisto e Gretchen. Tudo me parecia muito refinado, propício para adentrar o mundo da patifaria em alta sociedade.

Foi um período mais de paranças que de andanças. O tempo para os ricos passa mais devagar, e eles demoram mais a perceber que foram ludibriados. Para que eles percebam a falta de algo, é preciso perder muito ou algo muito precioso, eu evitava grandes assaltos e mais ainda mexer no que lhes parecia precioso. Eu me contentava com dinheiro e com os agrados que eventualmente recebia. Sabe-se lá por que, mas eles me achavam quando pouco, um homem culto, quando muito, um “original”.

Eu estava hospedado em uma propriedade nos arredores de Fredericksburg, quando recebi um convite do casal Ehrmann para conhecer seu vinhedo, recém-instalado ao norte. Não os conhecia nem pessoalmente, nem pela fama, nem pelo nome. Entretanto, fui informado que eles eram um casal excêntrico, de uma família pródiga de recém-imigrados. Pareciam vítimas perfeitas. Além disso, o disfarce de douto e abastado começava a subir à cabeça e pensei: “Que loucura fabricar vinhos no Texas! Mas vamos lá, todo esse brandy respeitável e esse whisky ordinário já me enjoaram”. Escrevi um telegrama para o casal e parti no final de semana seguinte.

No meio tempo procurei por todas as vias mais informações sobre os proprietários do vinhedo. Perguntei diretamente aos aristocratas e seus empregados, bisbilhotei nas tavernas e salões de jogos, fui aos prostíbulos e tentei comprar segredos. Curiosamente todas as informações eram parcas, vagas e uníssonas: um casal de recém-imigrados da Alsácia (sim, eu sei onde fica, no meio do quiproquó ente alemães e franceses, ó doutos e abastados!), tinham fortuna, eram excêntricos, não contratavam locais, trouxeram seus empregados da terra natal, quase ninguém os visitava, eles não visitavam ninguém. Tudo muito estranho, mas o que não era estranho naquela região?! Ainda assim, a pulga instalou-se atrás de minha orelha com alarde e espalhafato.

Já estava comprometido. Não poderia recusar a visita. Na verdade, nem queria, eu estava autenticamente curioso. Curioso sobre eles, e entediado da aristocracia local. Que mal poderia fazer um pouco mais de excentricidade?

O cocheiro da carruagem que me levou até a propriedade parecia surpreso com o meu pedido para que me transportasse até lá. Surpreso, mas facilmente convencido a aceitar o serviço ao ver o convite, e persuadido de todo quando as moedas caíram em suas mãos. A viagem foi mais longa que o esperado. Já estávamos no crepúsculo quando chegamos ao pórtico da mansão. Um mordomo aguardava. Vestimenta impecável, mas um rosto hirsuto, o que era raro de ver na região, mordomos de barba. Realmente, a excentricidade já se mostrava à chegada.

Subindo as escadas que conduziam ao nível da casa, pude ver duas estátuas esculpidas em material difícil de precisar. Animais ambíguos eram retratados, pareciam cães, lobos, mas não, não exatamente. A cada vez que tentava fixar o olhar nelas, sempre de maneira fugidia, seria deseducado reparar nessas coisas, elas pareciam mudar levemente de aparência, provavelmente efeito do lusco-fusco do horário. Fui conduzido até a antessala, um espaço amplo e rústico, mas não sem atrativos. Tapetes grossos e mobília robusta decoravam o ambiente. O mordomo me anunciou: “Mister Franz Wenschel!”, e em breve os anfitriões deram as caras.

Herr Ehrmann era um homem difícil de se descrever, certamente havia nobreza no seu porte, mas sua postura era curvada, contida, seu olhar penetrante e indiferente (isso é possível?!), seus cabelos desgrenhados, e ainda assim imponentes, sua barba farta de um castanho avermelhado muito peculiar. Era um semblante impossivelmente fascinante e repulsivo.

Frau Ehrmann, por sua vez, era simplesmente encantadora, seu porte era charmoso e proporcional. Sua pele, alvíssima, contrastava com as tranças de seu cabelo ruivíssimo, e quase se confundia com o vestido de um branco absoluto, como eu nunca havia visto, se fosse possível olhar desatento para ela, seria possível ficar confuso se ela estava vestida ou nua. E ainda havia aqueles olhos penetrantes de uma íris amarelada, como eu nunca havia visto antes!

Acredito que não tenha conseguido esconder o meu assombro com a vista do casal. Ou o casal não reparou nisso, ou fingiu não reparar (mais plausível). De todo modo, foram corteses, deram-me as boas-vindas e me convidaram a sentar-me em um canapé enquanto a mesa do jantar estava sendo posta. Poucos minutos depois, preenchidos por uma conversa amistosa e tensa, eivada de risos e interjeições fora de lugar.

Herr Ehrmann anunciou de forma abrupta e solene que precisaria ausentar-se, após o mordomo sussurrar-lhe algo ao pé do ouvido. Antes disso, porém uma cena insólita. Ele apanhou um grande e pesado álbum que estava em cima de um aparador, abriu uma gaveta do móvel, puxou uma tesoura e entregou à esposa. Foi o único momento em que ela pareceu algo desconfortável ao longo de todo o encontro. Ela cortou uma mecha de cabelo e entregou a ele, que a guardou no álbum.

Ao subir as escadas para o patamar superior, Herr Ehrmann lançou um último olhar à esposa, um olhar de delegação de funções. Em um relance, o fundo de seus olhos refletiu um tom prateado enquanto mirava sua senhora. Nenhuma palavra foi dita durante esse acontecimento por nenhum dos dois (eu, é claro, que não iria soltar um pio! Só observava confuso, mas ciente do meu lugar). Assim que ele saiu de nosso campo de visão, imediatamente ela retomou a conversa como se nada tivesse acontecido:

— Bom, parece que seremos apenas nós dois a jantar hoje, senhor Wenschel. Isso lhe apraz?

— Certamente vossa companhia me é muito agradável, Frau Ehrmann! Mas penso que sentirei falta da companhia de vosso marido (sinceramente, nunca soei tão falso em minha vida: tom de voz, e testa empapada de suor me denunciavam claramente).

— Hahaha, por favor, Mr. Wenschel, não use destas formalidades aqui… “vós”, “vosso”, “vossa”. Esqueça isso! Aqui nos tratamos por iguais.

— Perdoe-me, senhora. Isso seria realmente adequado?

— Aqui, entre nós, nada é inadequado. Eu posso vê-lo para além das aparências, e estou certa de que todos esses pudores são perfeitamente desnecessários. Desnecessários talvez ainda seja pouco. Desprezíveis? Sim, soa bem melhor.

— Não sei se a entendo bem, senhora. O que há na vida se não aparência? O que é possível divisar além delas?

— Está vendo? Entendemo-nos perfeitamente. Não há nada além das aparências nesta vida. Somos o que parecemos, parecemos o que quisermos. Então, refraseio aquilo que disse antes: vejo além do seu querer, Mr. Wenschel.

— Pensei que seria difícil, mas a senhora conseguiu me deixar ainda mais confuso. O que seria isso que eu quero, e mais, o que é isso que a senhora vê além?

— Seu apetite pelas uvas, por exemplo.

— Meu apetite?

— Sim, exatamente. Você não veio aqui pelas uvas? Ao menos não era isso que pensava encontrar aqui?

— Se pelas uvas, a senhora quis dizer o vinhedo… sim, é claro! Nunca ouvi falar de uma vinícola no Texas.

Frau Ehrmann levantou-se e inclinou-se em minha direção, ela exalava um aroma tão delicioso, como o buquê de um bom vinho, sua silhueta era tão atraente, com seu busto semicoberto pelo decote, que quase não conseguia me conter. Provavelmente meu rosto não conseguia. Ela então disse:

— Não, definitivamente não, Ezequiel. Não falo de uvas, nem de vinhedo. Mas daquilo que suas mãos pensam que não podem alcançar, e ao não alcançarem desdenham.

Como ela sabia o meu verdadeiro nome? E como ela podia ser tão bonita? Meu rosto corava, e minhas mãos estavam prestes a alcançar o que não deveriam, ou deveriam? O que estava acontecendo ali? Parecia uma armadilha, mas que tipo de armadilha era essa? Até agora não via risco algum! Éramos apenas eu e uma mulher deslumbrante em minha frente quase que se oferecendo a mim!

Sem aviso, o mordomo apareceu portando um candelabro desproporcionalmente grande, ele caminhava em direção à sala de jantar. Por um átimo, os olhos da Frau refletiram como os do Herr, mas dourados.

— Venha — disse ela — vamos sentar-nos à mesa. — Eu só obedeci. A mesa estava posta, ela me indicou um assento. Pela suntuosidade da cadeira, reconheci que ali seria a cadeira destinada a Herr Ehrmann. Novamente, só obedeci, sentei-me. Ela permaneceu de pé ao lado da cadeira. Enquanto isso o mordomo acendia as velas do recinto. Não, não foi isso, ele simplesmente desapareceu enquanto as velas se acendiam sozinhas, eu podia ver, e não podia, eu o via acendendo-as, mas também sabia que ele não estava lá. Quando ele se retirou, ou melhor quando as velas estavam todas acesas, ela se sentou na mesa à minha frente e retomou o diálogo.

— Veja bem, meu caro Zeke, posso chamá-lo assim? Tolice! Claro que posso! Veja bem, eu e Herr Ehrmann não somos exatamente marido e mulher. Somos sócios. Temos interesses em comum, amigos em comum (na verdade não, não temos amigos, nem somos um do outro — oh, também sei fazer notas!), mas sobretudo inimigos em comum.

— Senhora, não vejo como um sujeito como eu, de posses e intelecto limitados, e ainda por cima coxo de uma perna, poderia ser inimigo de pessoas tão ilustres como vocês!

— Hahaha! É isso que eu adoro em vocês, canalhas, sempre sabem quando dar um passo atrás. Sinceridade sem franqueza! Não foi assim que você já descreveu isso? Boa imagem, é uma maneira de pensar bem parecida com a nossa! Ah, não se ofenda, por favor! Não li as suas memórias, eu leio você. Inteiro.

— O que você quer de mim?

— Isso já é um bom começo, tratar-me por você. Não que sejamos iguais, não somos. Guarde isso para os canalhas, para os humanos. Mas eu e Herr Ehrmann precisamos de outros sócios. Não fica bem sócios se tratarem com reverência. Somos instrumentos uns para os outros.

— Mas isso não responde o que perguntei, o que você quer de mim?

Ela jogou pratos e talheres para longe, deitou-se na mesa na minha frente, olhou-me nos olhos e abriu as pernas puxando a saia do vestido contra si e deixando as pernas alvas, macias e cheirosas à mostra.

— Essa não é a pergunta certa: o que você quer de mim?

Eu não aguentei, levantei-me da cadeira e pulei sobre ela enquanto desabotoava minhas calças. Quando meu rosto estava prestes a tocar seus seios, ela se metamorfoseou. Agora era uma raposa gigante, igualmente bela, igualmente atraente. Mas eu era um canalha, não um pervertido. Aquilo me paralisou. Eu dei um passo atrás, ainda que excitado.

— Hahahahahaha! Viu? As uvas estão aqui! Você as desdenha justo no momento de colhê-las. Eu sei o que você quer. É, e não é, o meu corpo. Você quer alguém que te compre pelo que você vale: nada, seu merda! Você resmunga que não te aceitam pelo seu corpo, por ser coxo, mas me rejeita porque não sou humana. Irônico, não é? Tudo bem, eu não me ofendo, já sabia que seria assim, até por isso cheguei tão longe!

Eu nunca me senti tão humilhado e excitado em minha vida. Nunca tive tanto medo, nem estive tão seguro em minha vida. O que era aquilo que se passava diante dos meus olhos (Seus olhos, Zeke? Não, os olhos na sua cara não lhe pertencem, eles são do Herr e meus, você não comanda nada, nem sua própria história!).

— Cale sua boca, silencie seus pensamentos, e ouça, finalmente, o que eu quero de você. Vai te deixar surpreso… Eu não sou nenhuma divindade cristã ou pagã, sou mais antiga que todos eles. Não quero penitência, não quero culpa, não quero contrição. Nada a que aquele celerado do teu pai se afeiçoa. Eu quero o que você quer. Simples assim.

— Eu, eu, eu…

— Sim, você não entende, ainda assim precisa se afirmar. Não há o que entender aqui. É só deixar seu desejo fluir. Você não é meu inimigo, nem do Herr. Acontece que temos inimigos em comum.

— Quem?

— Faça-me o favor! Que inimigos você tem nesta vida? Tem gente que quer vingança, revanche sobre você, mas você nem sabe quem eles são. Quem são seus inimigos? Em outras palavras, com quem você se importa?

— O Velho…

— Sim, aquele decrépito… que te trouxe à vida sem te pedir permissão e depois te atirou naquele covil de gente imunda, enquanto dava a seu irmão, seu gêmeo, a vida que merecia ser sua!

— Pera aí… como aquele borra botas, ex-padre autoexcomungado, anátema por vocação, apóstata de confissão, pode ser inimigo de alguém como você?

— Bom, ele não é meu inimigo, mas é inimigo do meu sócio — é assunto dele, não me meto. O meu inimigo é outro, e ele anda com o seu irmão, aquele que te roubou a vida que lhe cabia.

— Meu irmão? Mas que culpa ele tem nisso tudo? Eu achei que ele fosse tão vítima como eu. Uma vítima com mais sorte, é verdade, mas vítima, ainda assim.

— Veja bem, não há vítimas nesse mundo, lembra? Os homens são iguais. E ninguém mais igual que dois gêmeos. Ainda assim… um foi criado pelo pai, outro por um trambiqueiro. Um conheceu a verdade, outro foi iludido, protegido, o tempo inteiro. Um é um canalha, covarde e coxo, outro é um caçador reconhecido até pelo povo desta terra. O que ele merece que você não?

— Você está certa.

— Não, não estou, é assim que o mundo é. E ele não é certo nem errado, só é.

— Você pode dizer o que você quer, afinal?

— Sacrifício, queremos o que você quer, o sangue do seu pai, e todas as consequências deste ato! Faça isso e um dia essa cadeira será sua com a bênção de Herr Ehrmann. Faça isso e um dia talvez você tenha coragem de colher as uvas — disse ela puxando ainda um pouco mais a saia para cima e gargalhando: — Hahahahaha!

O eco que a risada espalhava pelo amplo salão de jantar foi desaparecendo, assim como a propriedade dos Ehrmann, o vinhedo, a estrada, Frau Ehrmann e a própria consciência de Ezequiel.

8. A outra face

Sempre me soube um merda, mas, depois do episódio com os Ehrmann, essa certeza se transformou em profissão de fé. Por vários dias cheguei a pensar que aquilo tudo havia sido uma alucinação, que minha loucura tivesse resolvido assumir o controle de vez. Talvez tenha, talvez não… apesar de tudo o que se passou depois ainda assim não sei me decidir sobre isso. Mas isso realmente importa? Esclareçam-me, ó doutos e abastados!

— Ora, ora, agora recorre a nós? O que nos resta se não concordar com você? Não importa nada se o que se passou no vinhedo foi real ou fruto da sua loucura! A única certeza a se tirar disso tudo, é essa mesmo que você reafirma: sua condição de merda. Se foi tudo real, até sua pretensão de equalizar o mundo se esvai, há mais que humanos andando sobre a terra, não há mais possibilidade de viver entre iguais, o mundo dos humanos é uma grande fossa, a fossa de coisas que nos escapam à compreensão. Se foi tudo alucinação, o ponto de chegada é quase o mesmo, você continua sendo a merda que escorre pelas paredes, sem controle sobre nada, nem mesmo sobre essa consciência que você finge hipertrofiar.

(Afinal, temos aí mais uma prova da equalização, eu e os doutos e abastados chegamos às mesmas conclusões. Das conclusões deles, eu tiro outra: somos todos uns merdas!)

Não fazendo diferença se tudo aquilo foi real ou alucinado, eu havia assumido uma responsabilidade com aqueles seres estranhos. Uma responsabilidade que já era minha e adiava há muito tempo: matar o Velho. Novamente, sempre soube que era um merda, ainda assim, até então, eu nutria certo asco pela fossa. Olhava para ela da beira, calçava uma bota para verificar sua profundidade, tapava o nariz. Agora era o momento de chafurdar de vez nela.

(Retificando minha nota anterior, e indo além do que os doutos e abastados poderiam me ensinar: não somos todos uns merdas, somos todos a mesma merda! Na fossa não é possível distinguir uma merda da outra)

Bateram à porta. Era Herr Ehrmann. Ficamos diante um do outro por um intervalo de tempo bem desconfortável. Ele ficou me encarando sem piscar, com o mesmo olhar penetrante e indiferente, eu não abaixei a cabeça nem desviei o olhar. Parecia que ele sondava meus pensamentos, que via a minha loucura. Sim! Ele a via, eu pude ver seu reflexo naqueles olhos, pela primeira vez a vi: ela era um lampejo do brilho dos olhos dele, fugaz mas determinada. Ela não me dominava, ela era minha companheira.

Finalmente, sem desviar o olhar por nem um segundo, o homem pôs a mão esquerda no bolso da casaca e me entregou um envelope. Eu o abri e examinei seu conteúdo: um mapa. Quando levantei a cabeça novamente, Ehrmann não estava mais lá, mas sua voz falou à minha loucura:

— Encontre-me lá em três dias, e realize nosso desejo.

Foram os três dias mais longos da minha vida. Mas não foram os piores. Fiz as pazes com minha loucura. Ainda não sabíamos se estávamos vivendo algo real, ou se uma alucinação. Ela chegou a sugerir, que talvez ela tivesse uma loucura própria, que estava enganando a ambos! Rimos muito disso! No resto do tempo eu planejei a viagem, aproveitei meu respeitável status provisório de Franz Wenschel para conseguir um cavalo “emprestado” com um criador da região, e um bom farnel da venda da cidade. Estudei bem o mapa e tracei um itinerário. Três dias era um prazo apertado, mas factível.

Durante a viagem não pensei em nada, e até minha loucura ficou calada. À noite levantava acampamento e quando parava para descansar podia perceber que havia uma matilha de coiotes me acompanhando ao longe durante todo o trajeto. Quer dizer, pareciam coiotes, mas poderiam ser outros animais. Lembravam muito as estátuas do vinhedo. Era estranho uma matilha normal guardar esta distância de um viajante solitário. Assim como era estranho que eu não me sentisse ameaçado por eles. O que era normal a esta altura?!

Finalmente, do alto de uma ravina consegui enxergar a cabana do Velho ao longe. Parecia tudo tranquilo, uma fumaça leve saía pela chaminé daquela pocilga. Que lugar miserável! No meio do nada, um monte de couro e pedaços de carne curtindo ao sol. Será que o Velho não teria feito bem em me deixar com os Wenschel? Pelo menos lá não fedia tanto, era um lugar mais civilizado.

Estranho eu pensar isso, pode parecer hesitação, mas não era. Eu estava determinado a matar meu pai. O ódio me consumia, o desgraçado me visitava, dava dinheiro ao patife do Wenschel, mas nunca assumiu a paternidade. As promessas da Frau Ehrmann me incentivavam, a vida era fossa, mas se a minha latrina fosse como aquela cadeira imponente em um vinhedo! Ah, aí sim eu poderia suportar muito melhor toda a canalhice do mundo!

Talvez eu simplesmente estivesse tentando racionalizar uma limonada do limão que era minha vida. Já podia sentir o gosto da limonada, antevia uma vida mais leve depois que cortasse os laços com a geração que havia me jogado na fossa que é esse mundo. Sem mãe, agora sem pai — já dava como certo isso — agora coxo e órfão! A vida parecia mais fácil assim.

Apeei do cavalo e o fui conduzindo pelas rédeas a pé, não queria fazer barulho, tampouco ficar sem a montaria por perto, caso precisasse fugir. Onde estava Ehrmann? Ele marcou três dias e nem sinal dele! Às favas com ele, eu tinha pressa de acabar logo com isso. Já havia esperado demais, além disso que diferença fazia estar ele ali ou não, não seria eu a matar o Velho? Ele não me parecia o tipo que suja as mãos (ou patas, ou cascos, sei lá como ele se parecia de verdade, vide a metamorfose da mulher).

O silêncio da viagem agora não existia mais. Minha mente fervilhava e minha loucura não parava quieta. Parecia que ela queria, ainda mais que eu, dar fim àquele miserável. Ela enchia minha cabeça, dizia que eu não deveria ter esperado tanto, que os limões já estavam azedos e minha limonada teria o gosto do chorume que escorria da fossa. Tentava me consolar, entretanto: antes tarde, que mais tarde. Era quase como se ela me empurrasse adiante.

Enfim cheguei aos fundos da casa, acalmei o cavalo e amarrei com um laço fácil de soltar em uma coluna da varanda. Nada de Ehrmann! Às favas! Às favas! Saquei o revólver e abri a porta dos fundos com um pontapé meio desequilibrado, mas eficaz. O Velho deu um pulo da cadeira onde estava sentado lendo.

— Ezequiel? É você, meu filho?

Ele teve tantas oportunidades de dizer isso, mas deixou para agora, no último momento. Covarde!

— Sou eu, Ezequiel! — Eu nem falei isso, eu rosnei essas palavras, espumei cada sílaba como um cão raivoso.

— Meu filho, eu imaginava que esse dia chegaria. Não, eu não imaginava, eu sabia. Não vou tentar pará-lo. Diga e faça o que tiver que fazer. Eu errei muito.

Covarde, covarde! Que conversa mole… melhor que ninguém eu sei que somos todos a mesma merda, mas isso era patético demais. Anos de abandono, e eu ali transtornado na frente dele, e o que recebo em troca é autocomiseração?! Não! Ele não era nem merda, teria que evoluir muito para chegar nisso. Eu queria medo nos olhos dele, ódio, desprezo, qualquer coisa, não aquela paz e aceitação. Era demais para mim!

— Velho, você me jogou na fossa que é esse mundo, coberto de chorume e merda até que eu me tornasse aquilo em que me afogava, e você só consegue dizer que “errou”? — Levantei o revólver em sua direção. Eu tremia, mas não poderia errar um disparo daquela distância.

De repente senti a loucura se agitando em mim, e uma presença atrás do meu corpo. Nem tive tempo para verificar. Neste breve instante de distração o Velho sacou uma espingarda e atirou, dizendo:

— Você pode me levar, mas não levará meu filho! Saia daqui, morra!

Eu nem pensei, só atirei de volta, certo de que eu e ele terminaríamos mortos naquela espelunca. Para garantir eu não dei um disparo só, eu esvaziei meu revólver contra ele. Mesmo ali ele pensava no meu irmão e não em mim? Ele atirou contra mim para que eu não fosse atrás dele?! Era assim que aquela autocomiseração acovardada se traía? Maldito!

Não foi surpresa ver aquele corpanzil celerado, lascivo e guloso estatelado no chão. Que sensação boa me tomou. Minha loucura teve orgasmos, e eu senti um segundo de paz pela primeira vez na vida. A surpresa foi que eu continuava vivo, como era possível? O Velho, que era caçador, não podia me errar a esta distância! Olhei para trás, ele não errou o tiro — ele acertou. A cabeça de Ehrmann explodiu atrás de mim, e cacos de crânio e geleia de cérebro escorriam pelas minhas costas. O corpo tombou ao chão e desvaneceu em fumaça. Mas aquela gosma asquerosa continuou presa a meu casaco.

Então, não era comigo que ele falava, mas com Ehrmann. Ele queria me proteger dos Ehrmann? Proteger do quê? Das únicas pessoas que me olhavam nos olhos, viam como eu era e não se incomodavam com isso? Das únicas pessoas que podiam me olhar com o mesmo olhar que ele mesmo me dirigia na infância. Patético, covarde, lixo!

Ehrmann teve a cabeça explodida, mas sorria ainda assim. Aquele corpo era só um disfarce. A face espectral de um coiote gigante ocupou o que era lugar da cabeça estourada. Espectro e corpo desvaneceram, não sem antes me alertar:

— Saia logo daqui. Sua metade está chegando. Ainda não é a hora de vocês se encontrarem, ainda…

Por um momento fiquei petrificado. Meu irmão estava chegando! O fascínio da infância por conhecê-lo ainda vivia em mim. A esta altura é claro que eu já o odiava por ser quem eu poderia ter sido, por, mesmo involuntariamente, ter tido tudo o que não tive. Mas a curiosidade falou mais alto, reuni todos os papéis que encontrei pela casa, queria saber mais do Velho e do meu irmão, vai que ali havia algo útil? Ao mesmo tempo isso acabaria forçando o encontro que eu queria há tanto.

Ehrmann estava certo em me alertar. Quando eu saí da casa ele já estava lá fora, de tocaia. Mas o idiota paralisou-se ao me ver! Acho que ele nem sabia da minha existência, de repente ver a sua própria face olhando para você de volta deve ser realmente perturbador.

Eu mesmo, que já sabia de sua existência e estava alertado de sua chegada iminente, também me abalei com a visão. Eu, que tanto especulei sobre a igualdade dos homens, não estava preparado para confrontá-la de frente em uma minúcia tão crua. Não era eu, mas era eu. Mas mais atlético, mais ágil, menos coberto de merda… O ódio voltou a dominar meus pensamentos e eu só tive forças para dizer:

— O próximo é você!

Montei no cavalo e parti sem rumo dali. Estava inquieto, mas feliz. Feliz por ter despachado o Velho pusilânime. Feliz por ter apresentado meu irmão à sua outra face.

Conheça o universo BadLands

Conheça e Apoie!

Podcast RPG


APOIE NOSSA CAUSA!

Nosso Plano de Assinaturas do APOIA.SE! Acesse e veja nossas recompensas para os apoiadores.

Mostrar mais
Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios