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Joana | Conto de Horror

Escrito por: Vinicius Carneiro

Sair com a linda colega de trabalho parecia uma boa ideia, o problema foram os efeitos colaterais depois. Indicado para 14 anos ou mais.

Meus caros amigos, se encontrarem este registro em áudio saibam que não estou louco, nunca estive, enfrentei algo além de todas as possibilidades humanas, algo maior que eu e que a história de nossa jovem espécie. Se diante de meu relato ainda por louco me considerarem, deixo um aviso: Não investiguem qualquer informação dada aqui.

Havia acabado de acordar e ainda sentia o corpo cansado. O dia anterior fora especialmente movimentado, pois Joana havia dado uma festa, e suas festas sempre davam o que falar. Às vezes muita bebida, às vezes um bacanal, sabe? Todos da empresa iam, e eu não sou de ferro. Para coroar minha boa sorte, “peguei” Joana, uma gostosa de primeira linha, todos queriam comer aquela loira. Meus colegas não cabiam em si de inveja. Sabe aquela gostosa que para o trânsito? Pois bem, uma loira panicat, quadris largos, seios médios, nem gorda nem magra, um sorriso que derrete qualquer iceberg. Ah Joana, que noite maravilhosa! 

Eu sabia que hoje nada iria ser diferente, que ela me cumprimentaria normalmente, não trocaríamos olhares, nem beijos. Depois de Armando eu fui o primeiro a sair com ela. Ele, por outro lado, não possuía a compreensão que eu sempre tive: Aquelas festas eram curtição, nada mais. Armando acabou pedindo demissão, nunca mais foi à empresa, abalado pelas insistentes negativas dela, talvez.

Fiz minhas rotinas diárias, tomei café, fiz a barba, escovei os dentes. Um deles estava mole, mole mesmo, igual quando meus dentes de leite caíram. Engraçado como isso te abala, aos 30 anos com um dente mole era algo temeroso, logo um dos caninos, e ficaria horrível se ele caísse, sabe? Toquei para sentir se estava solto e ele veio em minha mão. Um desespero me preencheu naquele momento, como veria Joana com uma janela em minha dentição? Oh, Cristo! Que má hora para aquilo acontecer!

Fui trabalhar, afinal, né? Nem só de aparência vive o homem. Na agência de telemarketing cada um trabalhava em seu cubículo. Eram pequenos, incômodos e movimentados, muitas ligações por hora. Veja bem, eu era o supervisor do local, Joana, por outro lado, uma mera atendente, daquelas que trocamos a cada seis meses, sabe? Ela, no entanto, estava há 5 anos em sua função. Fiz minha ronda rotineira por todos os locais, a cumprimentei, ela me olhou.

Havia um sentimento diferente ali, o que seria? Não consegui detectar, mas respondeu meu cumprimento. Vários colegas sorriam e me parabenizavam pela conquista, foi divertido e tudo tranquilo até o meio da manhã.

Ao digitar uma senha percebi que a unha do meu dedo anelar estava suja, algo cuja cor variava de marrom para preto a impregnara, não me lembrava de ter mexido em graxa ou óleo de motor, mas como havia bebido no dia anterior creditei o erro à minha memória. Fui até o banheiro, molhei as mãos e comecei a esfregar a unha com sabão, primeiro levemente – mas aquilo não saía – depois vigorosamente por um longo período. Parei, então, e olhei de perto: estava por baixo da unha, não por cima como imaginei inicialmente.

Toquei, nada senti, empurrei a unha, nada, então coloquei meu dedo de frente aos olhos e observei entre a unha e o dedo. Havia um pequeno espaço ali, bem onde deveria haver pele, sabe? Empurrei a unha com cuidado para cima, senti como se um velcro muito suave descolasse, e sem dor a unha caiu. Algo frio caiu em meu estômago, primeiro o dente, agora a unha? Havia algo errado, mas o quê? Fui até meu chefe e pedi-lhe licença, precisava ir ao médico, como prova mostrei o dente faltando e a unha que caíra. Ele me liberara com um misto de horror e nojo do que mostrei, como se pudesse algum dia saber pelo que passei, ingênuo por certo. 

Todos os exames deram normais, não havia nada de errado comigo, exceto a unha, claro. O médico informou que havia sinais de necrose, fez uma raspagem e me avisou que ela nunca mais cresceria. Ainda, segundo ele, poderia ter resultado de um trauma muito grande na região ou algum problema circulatório, e recomendou que eu procurasse um angiologista para me certificar. Não me senti satisfeito, algo estava errado e sabia disso.

O restante do dia passei em casa, arrumei um atestado de um dia com o médico, este recomendou que eu deveria voltar no dia seguinte para refazer o curativo, para evitar infecções. Cheguei em casa às três horas da tarde, algo estava errado em mim, podia sentir e isso me angustiou, comecei a procurar na internet algo parecido com o que sentia. Digitei por algumas horas, pesquisei e li várias referências médicas, nenhuma satisfatória, durante um período de trinta minutos mais duas unhas caíram, me causando extremo desespero! No entanto eu tinha que manter a calma, precisava descobrir logo o que ocorria, então me mantive firme em minha pesquisa, e ao final destas minhas mãos já não possuíam mais unhas.

Nada satisfazia minha curiosidade, e quase desisti de encontrar algo, mas no último minuto encontrei um blog, era um dos últimos na minha busca, o tema geral era algo sobre bruxaria, maldições e superstições diversas. De fato existiam muitas informações truncadas ali, porém encontrei um artigo: “Meu corpo está morto”. Era muito similar ao que eu sentia e ao que passava, porém explicava algo interessante: a vitalidade havia sido removida do rapaz que narrava o ocorrido, era como se algo houvesse roubado sua força vital. Como nada lhe sobrara, aos poucos seu corpo morria.

Em outra situação eu certamente teria agido com ceticismo, mas não hoje. Cocei minha cabeça preocupado, e se aquilo fosse verdade? Caiu um grande tufo de cabelo, corri ao espelho e puxei mais alguns cabelos, que saíram como se apenas descansassem em meu couro cabeludo. Notei mais uma coisa, minha pele estava escurecendo e enrugando, era pouco notório ainda para quem nunca havia me visto, mas não para mim. Um desespero cresceu dentro de mim, veio a certeza de que a morte me aguardava ao final disso tudo, e uma sensação desoladora se apoderou de meu corpo.

Como isso tinha acontecido? Não notei nada de diferente, absolutamente. Como depois de minha vida ter me feito tão feliz uma desgraça de tal tamanho se abatera sobre mim? Eu tinha de descobrir, deveria ter um jeito de reverter essa situação. Eu tinha que me acalmar, passei alguns minutos controlando a respiração. Enfim resolvi: tinha que ser algo ocorrido durante a festa de Joana, mas o que? Nada tinha feito de incomum. Só havia um jeito de descobrir, eu iria até a casa dela.

Peguei meu carro e rapidamente atravessei as vias necessárias para alcançar o local, e após vinte minutos de translado lá estava. A casa era de médio porte, com um muro baixo, um jardim aberto e uma porta de madeira muito bonita. Era noite, eu imaginava encontrar Joana em casa, mas ela não estava. As luzes estavam apagadas, sua moto não estava na garagem. Pulei o muro e comecei a rodear a casa, todas as portas estavam trancadas, olhei calmamente em volta para entender se poderia entrar sem arrombar.

A casa era solta, com um grande terreno em volta, e diferente da maioria das casas aqui, era toda construída de madeira. Sempre achei aquilo muito fino, mas agora sentia tremores ao notar a diferença. Encontrei um alçapão ao lado da casa, igual a um abrigo contra tornados, sabe? Isso era no mínimo estranho, pois aqui no Brasil não tinha tornados. Tentei abrir e a porta não respondeu, havia uma tranca bem visível. Peguei o pé de cabra que trouxe comigo e coloquei a parte achatada da ferramenta em contato com a fenda da tranca, forcei e se soltou facilmente.

Era uma escadaria de aproximadamente quinze degraus, todos de madeira. Desci devagar, os degraus rangiam sob meu peso, aquilo parecia um alarme que denunciava minha presença, e meu coração batia cada vez mais rápido (ao menos ainda funcionava). Usei uma lanterna para iluminar o caminho, assim que encontrei um interruptor liguei a luz, ali estava o porão nunca visto por mim antes.

Era tudo feito de madeira, as paredes, os móveis, cada detalhe entalhado ricamente com figuras indizíveis, entalhes macabros e demoníacos que me causaram terror ao ver. Tudo era madeira trabalhada dessa forma, menos o chão, onde jazia uma enorme placa de basalto entalhado, que parecia estar nesse local há muito tempo, talvez centenas, não, milhares de anos! Havia um rosto entalhado na placa, semelhante aos entalhes maias que tanto vemos nos documentários históricos. Havia uma grande boca aberta, e olhos, e uma língua pontuda, em seu rosto o sorriso macabro e zombeteiro de algo profano me encarava.

Ouvi claramente:

“ A mesa.” – seguido de risos de crianças

A voz que retumbara em minha mente era grave e solene, me fez querer correr, mas fiquei, precisava entender tudo aquilo. Havia uma seriedade em tudo ali, uma organização ritualística, lá estava o ídolo, descansava na madeira da mesa, em volta dele a mesa apodrecia. Era algo misto, humano e besta ao mesmo tempo, tinha olhos enfeitados por grandes rubis, todo o seu corpo entalhado em lápis lazuli, parecia ser algo milenar, mas de uma antiguidade que me assustava, alguma coisa me dizia que não fora esculpido por mãos humanas. Andei em direção à pequena estátua e notei algo novo, suas mãos estavam estendidas para a frente. Nelas jazia uma bandeja, lembrava um prato de bateria bem pequeno, seria ouro? Parecia ouro. Olhei mais de perto, dentro da bandeja estava uma pequena quantidade de algo, um líquido viscoso que variava de esbranquiçado a transparente. Seria esperma? Seria meu? Estremeci novamente.

“O livro” – novamente aquela voz solene.

Havia um livro aberto, suas páginas amarelas marcadas pelo tempo denunciavam idade e uso, passei algumas e percebi manchas escuras também, gotas de algo que ali secara. Era escrito em uma língua cujo entendimento eu não tinha, algo perdido pelo tempo que somente historiadores mais dedicados teriam alguma chance de entender. O livro era cheio de gravuras, o estranho era que começava com gravuras que representavam o espaço, depois as pessoas apareciam na forma de algo reptílico, como humanóides que houvessem evoluído de lagartos ao invés dos primatas, em seguida as figuras mudavam para algo semelhante a homens. Várias vezes era repetida a imagem do ídolo, algo meio homem e meio besta, que era louvado por pessoas dessas raças ilustradas, as imagens mostravam bacanais e sacrifícios em seu nome.

Uma outra constante chamou minha atenção, uma fêmea fazia as vezes de sacerdote, sempre era ilustrada ao lado do “deus maldito” e muitas vezes aparecia em ilustrações sexuais, seu sexo acontecendo sempre em frente ao ídolo. Engoli em seco, ao pensar nisso me dei conta de que o quarto de Joana ficava exatamente acima desse altar, a cama talvez ficasse uns passos à frente da estatueta. Finalmente me dei conta, minha vida fora dada em troca de algo, esse ser estranho a havia tomado de mim.

Entendi ali o sentimento no olhar de Joana, era pena. Ajoelhei e caí em prantos, minhas mãos formigavam, os dedos negros como a morte. Com estes restos limpei minhas lágrimas e contive meus soluços. Peguei o pé de cabra e andei em direção à estatueta.

– Você me matou, demônio desgraçado! – Levantei o objeto e bati com toda força que me restava. O pé de cabra se partiu em dois pedaços, um ficou preso na parede atrás da estátua, e outro em minhas mãos. Também perdera dois dedos de uma das mãos nesse esforço – sem sangue e sem dor –, fato que presenciei horrorizado. Em resposta ao meu esforço patético, uma risada profana ecoou alto em minha mente.

Então ouvi passos, me virei e fui atingido por algo duro. Não sei quanto tempo passei desacordado, mas acordei aqui neste caixão, ao que pude notar enterrado e apodrecendo sozinho. Para minha sorte não me revistaram, então mantive meu celular em mãos. Já não sinto mais as pernas, e um de meus braços também não se move mais. Morrerei aqui, mas deixo-lhes este aviso: Cuidado com a sacerdotisa do deus maldito.

Escrito por: Vinicius Mendes Souza Carneiro 26/07/2016


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Alisson Sturza

Curioso, dependente da tecnologia, amante de livros e corretor de contos.
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